Direito e Justiça Terrorismo/Guerra

Bispo de Pemba denuncia decapitações e alerta para aumento de raptos em Cabo Delgado

O bispo de Pemba, D. António Juliasse, denunciou a decapitação de cristãos e o aumento de raptos de crianças e sequestros para extorsão em Cabo Delgado, alertando para o agravamento da insegurança e das dificuldades humanitárias que afectam a população da província.Foto Vatican News, D. António Juliasse          Foto Vatican News, D. António Juliasse

Em entrevista conjunta à Renascença e à Agência ECCLESIA, publicada a 25 de Outubro, o prelado defendeu que a Igreja não pode permanecer em silêncio perante a violência que atinge as comunidades.

“As pessoas estão a morrer, e ficar calado diante desta situação é ser conivente com as mortes que estão a acontecer e com este sofrimento”, afirmou.

D. António Juliasse descreveu Cabo Delgado como “uma terra de mártires”, recordando a destruição, em Maio deste ano, da igreja da missão de São Luís de Monforte. O bispo manifestou também preocupação com os raptos de menores e os sequestros de pessoas cujas famílias são pressionadas a pagar somas avultadas para garantir a sua libertação.

Segundo o prelado, o receio de novos raptos levou organizações humanitárias a suspender actividades em algumas zonas da província, restringindo a sua presença a Pemba e a outras localidades consideradas mais seguras. Esta limitação, alertou, agrava a vulnerabilidade das populações, sobretudo das crianças afectadas pela subnutrição e pela falta de assistência.

Nove anos após o início dos ataques armados, em Outubro de 2017, o conflito provocou mais de 6.600 mortos e cerca de 1,2 milhões de deslocados, segundo os números citados na entrevista. A violência continua a forçar famílias a abandonar as suas comunidades, enquanto outras regressam às zonas de origem por falta de alimentos, terras para cultivo e condições adequadas nos centros de reassentamento.

O bispo relatou que algumas famílias, mesmo conscientes dos riscos, preferem regressar às suas aldeias e enfrentar a insegurança nos locais onde viviam.

“Quando são atacadas, fogem para as matas, voltam, enterram os mortos, reconstroem as casas e continuam ali”, descreveu.

Sobre a resposta à violência, D. António Juliasse manifestou preocupação com a falta de perspectivas claras para o fim do conflito. Quanto à presença de forças estrangeiras, referiu que os cerca de dois mil militares ruandeses garantem segurança em áreas delimitadas, incluindo Palma e Mocímboa da Praia.

Em relação à missão de formação militar da União Europeia, que inclui Portugal e cujo mandato o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, pretende prolongar até 2028, o bispo afirmou não dispor de elementos que lhe permitam avaliar os resultados dessa intervenção.

O prelado agradeceu ainda a solidariedade da Igreja em Portugal e a atenção do Papa Leão XIV à situação de Cabo Delgado. Destacou igualmente a visita do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, a um centro de reassentamento, durante a qual contactou com famílias afectadas pelo conflito, no contexto das celebrações dos 30 anos de relações diplomáticas entre Moçambique e a Santa Sé.

Na mesma entrevista, D. António Juliasse pediu esclarecimentos às autoridades sobre a morte do bispo de Quelimane, D. Osório Citora Afonso, defendendo que a população deve conhecer as circunstâncias do crime e saber se se tratou de um caso isolado.

“O povo, todo o povo moçambicano, e nós, cristãos, precisamos de ser esclarecidos sobre as circunstâncias da morte de D. Osório Citora Afonso”, afirmou.

O bispo de Pemba apelou, por fim, à mobilização da sociedade e das instituições para impedir que a crise humanitária e a violência em Cabo Delgado sejam esquecidas, numa altura em que milhares de pessoas continuam expostas a ataques, deslocações forçadas e dificuldades de acesso a bens e serviços essenciais.

Fonte: Agência ECCLESIA / Renascença | 25 de Outubro de 2026 (Moz24h)

Leave feedback about this

  • Quality
  • Price
  • Service

PROS

+
Add Field

CONS

+
Add Field