Não aconteceu fosse o que fosse; a Rosita morreu da mesma anemia de desleixo que faz com que uma mãe saia da maternidade, sem o seu filho, apenas com umas lágrimas embrulhadas em capulanas. A anemia aguda dos “volta amanhã”, nos hospitais, que sempre vem acompanhada pelo paracetamol do “ainda não temos resultados”. Assim morreu a Rosita.
Ela morreu de anemia do nosso envelhecido sistema de saúde; o único sistema que serve os pobres, pois quem gere o sistema tem clínicas privadas para se cuidar e combater qualquer anemia. Claro, Rosita também morreu da anemia grave das promessas do governo que nunca viu.
A Rosita, a menina que teve como berço um ramo molhado de uma árvore, a menina que chorou pela primeira vez entre as ramagens de uma árvore como um pássaro, a menina veloz e feliz que não se cansava de correr atrás do calendário; o calendário marcou 2001 e ela fez 1 ano, 2002 e ela fez 2 anos, 2003 e ela fez 3 anos, 2025 e ela fez 25 anos. E agora, que estamos em 2026, quem correrá por ti, Rosita?
A Rosita morreu de anemia dos nossos hospitais e centros de saúde com pequenas lojas de sangue nos laboratórios; a anemia dos doentes pobres que são empurrados com guias de alta para que morram em suas casas; a anemia das nossas farmácias sem comprimidos, com apenas uma receita de como chegar a uma clínica privada próxima.
A anemia que matou Rosita mata-nos todos os dias. Não quero imaginar o que ela pensava para o seu aniversário dos 26 anos de idade. Finou-se a Rosita com apenas 25 anos de idade e o calendário, solitário, não mais verá essa menina a somar os seus anos ao seu lado.
Rosita, agora, está onde esteve quando nasceu: no topo de tudo. Está longe de todas as promessas e anemias. Cuida-te, Rosita. E nós, em cada chuva que vier, em cada enchente que nos arrancar das nossas casas, iremos olhar todas as nossas árvores para te vermos novamente a nascer e a dar-nos esperança.

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