Opiniao

A Ambiguidade Perigosa do Discurso Oficial: SISE, Segurança de Estado ou Aparelho de Perseguição Política?

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

Resumo:

A recente declaração do Presidente do Partido Frelimo, Daniel Chapo, reportada pelo Jornal Canalmoz de 19 de Junho, que incumbe o novo diretor-geral do SISE combater “organizações antidemocráticas”, levanta sérias questões sobre o uso instrumental da segurança de Estado em Moçambique.

A ausência de definição rigorosa do que se entende por “organizações antidemocráticas” revela uma estratégia discursiva que ameaça a pluralidade democrática e institucionaliza a repressão sob o disfarce da legalidade.

Introdução

Na cerimónia de tomada de posse do novo diretor-geral do SISE, Daniel Francisco Chapo declarou que este deve priorizar o combate a “organizações antidemocráticas”. A enunciação, aparentemente genérica, carrega implicações graves, sobretudo num contexto como o moçambicano, em que o conceito de democracia é frequentemente manipulado pelas elites políticas dominantes para justificar o silenciamento das dissidências.

Este artigo pretende analisar criticamente o alcance e os riscos políticos e institucionais dessa retórica, com base em princípios de governança democrática e dos direitos humanos.

I. A retórica do inimigo interno: um dispositivo autoritário clássico

A ideia de combater “organizações antidemocráticas” inscreve-se num padrão discursivo comum aos regimes autoritários: a produção de um inimigo interno vago, móvel e conveniente, cuja existência é usada para mobilizar o aparelho de Estado contra qualquer força que desafie o status quo. Em vez de identificar claramente quais organizações incorrem em práticas antidemocráticas (com base em provas, decisões judiciais ou parâmetros constitucionais), o discurso de Chapo aposta na ambiguidade — abrindo espaço para que a oposição, as organizações da sociedade civil, jornalistas e ativistas sejam enquadrados nesta categoria, sem o devido processo legal.

II. A concepção “monodemocrática” da FRELIMO

Importa aqui destacar que, segundo a matriz ideológica maoísta que moldou a FRELIMO em seus primeiros anos pós-independência, a concepção de “democracia” sempre foi monodemocrática, ou seja, ancorada na supremacia de um único partido tido como vanguarda do povo, concepção essa que nega, por princípio, a validade do pluralismo político, substituindo a concorrência de ideias e projetos por um monopólio discursivo do poder.

Com efeito, quando representantes da FRELIMO denunciam “organizações antidemocráticas”, o fazem a partir de uma gramática política em que o dissenso plural é visto como ameaça e não como fundamento da própria democracia. Neste contexto, o termo “antidemocrático” é atribuído não àqueles que desrespeitam o Estado de Direito, mas àqueles que ousam reivindicar formas plurais de participação e representação — ou seja, uma verdadeira democracia liberal.

III. O SISE e a erosão das liberdades civis

Historicamente, o Serviço de Informações e Segurança do Estado (SISE) tem sido acusado de operar mais como instrumento de vigilância partidária do que como entidade de proteção da soberania e segurança coletiva. Tal prática contraria o próprio princípio republicano de separação entre Estado e partido, promovendo uma confusão institucional que mina a legitimidade democrática.

Quando um serviço de inteligência é politicamente instrumentalizado, deixa de proteger o povo e passa a proteger o poder — desvirtuando completamente sua missão constitucional.

IV. A inversão semântica do conceito de “democracia”

O paradoxo torna-se evidente: aqueles que invocam a defesa da democracia são, frequentemente, os principais violadores de seus princípios.

Ao silenciar vozes críticas, restringir liberdades civis e manipular instituições eleitorais, o regime moçambicano transforma a “democracia” numa casca retórica — um fetiche de legalidade para ocultar práticas autoritárias. Assim, organizações verdadeiramente democráticas tornam-se alvo sob a acusação de antidemocracia, e o Estado repressor é apresentado como guardião da ordem democrática.

V. O efeito dissuasor e o empobrecimento do debate público

Declarações como a de Chapo têm também um efeito simbólico e psicológico: elas atuam como dispositivos de dissuasão preventiva, levando organizações cívicas e indivíduos críticos a se autocensurarem por medo de represálias. Esse medo é, por si só, uma forma de violência estrutural que empobrece o espaço público e destrói as condições mínimas para o florescimento do debate democrático, da deliberação política livre e da inovação social.

Conclusão

O uso do SISE como aparato de repressão sob a bandeira do combate ao “antidemocrático” constitui uma grave ameaça à ordem constitucional, ao pluralismo e à dignidade dos cidadãos moçambicanos. Urge resgatar a integridade das instituições, despartidarizar os serviços de segurança e consolidar um espaço democrático onde críticas legítimas ao poder deixem de ser tratadas como ameaças à estabilidade nacional. Democracia não é unanimidade imposta, mas pluralidade protegida.

Nota do Autor: Este artigo circunscreve -se no exercício natural da cidadania ativa, pela ética política e governança democrática, sem nenhum propósito partidário.

Bibliografia

1.⁠ ⁠Canalmoz, 19/06/2025.

2.⁠ ⁠Bobbio, N. (1986). O Futuro da Democracia. Paz e Terra.

3.⁠ ⁠Diamond, L. (2019). Ill Winds: Saving Democracy from Russian Rage, Chinese Ambition, and American Complacency. Penguin Press.

4.⁠ ⁠Constituição da República de Moçambique (2004, com revisão de 2018).

5.⁠ ⁠Machel, S. (1975). Discurso de Proclamação da Independência de Moçambique. Arquivos Históricos.

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