Por Quinton Nicuete
Uma iniciativa de formação promovida pelo Banco de Moçambique, realizada nos dias 15 e 16 de Abril na cidade de Pemba, está a gerar controvérsia entre profissionais da comunicação social, que denunciam limitações no acesso à informação e falta de respostas a questões consideradas sensíveis.

O encontro, que reuniu mais de 40 jornalistas de Cabo Delgado em coordenação com o Sindicato Nacional de Jornalistas, foi apresentado como parte do programa “Economia para Todos”, com foco na compreensão do mercado cambial, taxas de juro e funcionamento do Fundo Soberano de Moçambique. No entanto, participantes relatam que o ambiente rapidamente se tornou tenso devido a restrições impostas durante as sessões.
Segundo o jornalista Osório Nachico, os organizadores proibiram registos audiovisuais, incluindo fotografias dos materiais apresentados, o que gerou indignação num evento cujo propósito era precisamente reforçar o acesso ao conhecimento. A medida foi interpretada como contraditória e levantou dúvidas sobre a transparência do processo.
Além das limitações operacionais, Nachico, apontou outro ponto de fricção foi a ausência de esclarecimentos concretos a perguntas consideradas centrais. Entre elas, destacam-se preocupações sobre a gestão e fiscalização do Fundo Soberano, sobretudo num país com histórico de escândalos financeiros. Questões sobre mecanismos de responsabilização, garantias contra captura por interesses políticos e sanções em caso de desvios ficaram, segundo os participantes, sem respostas directas.
A jornalista Maria da Graça, também confrontou os formadores com a discrepância entre os indicadores macroeconómicos apresentados e a realidade vivida pela população. Apesar de o banco central sustentar que a inflação se encontra sob controlo, muitos questionaram o facto de os preços continuarem elevados no quotidiano, levantando a hipótese de um desfasamento entre os dados oficiais e a experiência dos cidadãos.
Outro tema sensível segundo Graça, foi o nível das taxas de juro, considerado elevado por vários participantes, que apontaram impactos directos no acesso ao crédito, sobretudo para pequenas empresas e jovens empreendedores. Para alguns, permanece a dúvida sobre se a política monetária está excessivamente focada na estabilidade financeira em detrimento da dinamização da economia real.
Perante as insistências, os facilitadores terão alegado limitações institucionais para abordar determinados temas, encaminhando pedidos de informação adicional para os serviços centrais da instituição, em Maputo uma resposta que não satisfez os jornalistas de Cabo Delgado, olhando a distância de mais de dois mil quilómetros.
Apesar do clima de contestação, o director da filial do banco em Pemba, António Jossefa, considerou o balanço positivo, afirmando que as sessões permitiram abordar matérias relevantes e dotar os participantes de ferramentas úteis para o exercício do jornalismo económico.

Por sua vez, o secretário provincial do Sindicato Nacional de Jornalistas, Cadre Buana, reconheceu ganhos no domínio técnico, sublinhando a importância de aprofundar o conhecimento sobre economia num contexto global marcado por instabilidade, incluindo conflitos internacionais que influenciam mercados e economias como a moçambicana.
Ainda assim, entre os participantes, prevalece a percepção de que a iniciativa falhou em garantir um ambiente plenamente aberto e transparente. Para muitos, a experiência evidencia a necessidade de maior disponibilidade institucional para o escrutínio público, sobretudo quando estão em causa matérias de elevado interesse nacional, como o Fundo Soberano e a política económica do país. (Moz24h)

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