Por Quinton Nicuete
Os recentes ataques armados no centro e sul da província de Cabo Delgado já provocaram cerca de 37 mortos. No distrito de Chiúre, registam-se 28 vítimas mortais, 18 membros das milícias Naparamas e 6 civis na aldeia Walicha e 4 militares em Nivenevene, enquanto no distrito de Ancuabe morreram 9 pessoas, incluindo 6 civis em Natocua, 2 Naparamas e 1 elemento da Força Local em Nankumi, localidade de Salaue, no posto administrativo de Metoro.
Todos estes ataques foram reivindicados por grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, através dos seus canais oficiais de propaganda.
Apesar deste cenário de violência e deslocações forçadas, decorreu na vila de Metoro um festival público supostamente promovido por Almeida Abujate membro e vice-presidente da Assembleia Provincial de Cabo Delgado. A decisão de avançar com o evento, mesmo após ordens expressas pelo o Administrador do distrito, Belmiro Joaquim, para o cancelar e ele usou os seus poderes de membro e vice-presidente da Assembleia Provincial de Cabo Delgado, para realizar o evento. Esta atitude gera forte indignação.
Na semana passada, foi encontrado um corpo com sinais de extracção de órgãos humanos, a poucos metros do local onde o festival se realizou. Dois dias antes do início das festividades, a aldeia de Nankumi tinha sido atacada por insurgentes. Ainda assim, os organizadores mantiveram a programação, contrariando a decisão do administrador do distrito de Ancuabe, que, em reunião de emergência sobre a segurança, tinha determinado a suspensão do carnaval por respeito às vítimas.
Líderes comunitários de Metoro acusam os promotores do evento de insensibilidade e questionam a autoridade que lhes permite ignorar ordens administrativas.
“Que consciência vos permite celebrar enquanto as comunidades vizinhas choram os seus mortos?”, questionou um dos líderes.
A tensão cresce numa região onde, para além da violência armada, aumenta a percepção de ausência de coordenação e de solidariedade institucional.
Escalada de ataques e reivindicações extremistas
No dia 9 de Agosto, insurgentes associados ao Estado Islâmico reivindicaram ataques em Ancuabe e Balama. Em Ancuabe, afirmaram ter capturado e decapitado um membro das milícias locais. Em Balama, incendiaram a casa de um comandante dos Naparamas.
No dia anterior, dois Naparamas e um civil foram mortos na aldeia de Nankumi, em Ancuabe. Fontes locais relatam ainda casas e igrejas queimadas, bem como a decapitação de civis identificados como cristãos, em vários pontos de Cabo Delgado desde o final de Julho.
No final da semana passada, o mesmo grupo já tinha reivindicado um ataque em Walicha, no distrito de Chiúre, afirmando ter morto 18 elementos das milícias Naparamas e destruído dezenas de habitações e motorizadas.
Os Naparamas, milícias de inspiração tradicional que actuam desde os anos 80, continuam a combater lado a lado com as Forças de Defesa e Segurança, apesar de não fazerem parte da estrutura formal do exército moçambicano.
Entretanto, as respostas militares têm sido consideradas lentas por residentes e líderes locais, enquanto a população continua a fugir para o mato ou para distritos vizinhos em busca de segurança. (Moz24h)

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