Por Quinton Nicuete
Maputo – O embaixador da União Europeia em Moçambique, Antonino Maggiore, optou esta quarta-feira por não comentar publicamente as duras críticas de Venâncio Mondlane, líder interino do partido Anamola, que acusou a UE de agir com falsidade e de manter uma postura distante das reais necessidades do país.
Quando abordado pela Integrity, Maggiore limitou-se a dizer “não vou falar sobre este assunto”, entrando de seguida no carro protocolar, numa atitude que alguns analistas interpretam como sinal de esquiva face à crescente desconfiança da sociedade civil e de sectores da oposição.
No lançamento de uma auscultação política, o diplomata reafirmou o discurso habitual da União Europeia sobre a necessidade de diálogo, pacificação e responsabilidade partilhada entre governo e oposição. “Queremos louvar e reconhecer a coragem de todos, bem como o seu sentido de responsabilidade. Ninguém dialoga sozinho. Dialoga-se com os outros; erguem-se pontes; abre-se a mão de certezas para dar lugar ao encontro”, disse Maggiore.
Apesar da retórica de proximidade, críticos questionam se a União Europeia assume efectivamente um papel de parceiro imparcial e comprometido com o progresso democrático em Moçambique, ou se se limita a observar de fora, mantendo uma distância confortável enquanto apoia apenas formalmente processos políticos e reformas institucionais.
O embaixador sublinhou ainda que “os moçambicanos estão na liderança do processo; a comunidade internacional no papel de apoio”, destacando o contributo técnico e financeiro da UE e das Nações Unidas, em particular através do PNUD. No entanto, a ausência de respostas directas às acusações de Mondlane gera um clima de desconfiança, sobretudo num momento em que o ambiente político do país continua sensível e marcado por tensões entre forças partidárias, como salienta Onélio Duarte, em reportagem da Integrity.
Para muitos observadores, a UE corre o risco de ser percebida como uma força distante e pouco responsável, cujo compromisso efectivo com a transparência e a justiça política em Moçambique permanece questionável. Ao encorajar apenas o diálogo e a boa-fé, sem enfrentar directamente as críticas ou assumir compromissos claros de acompanhamento e responsabilização, a União Europeia poderá estar a minar a confiança que o país deposita no seu papel de mediador.
A atitude aparentemente banal levanta uma questão de fundo. Até que ponto a União Europeia, apresentada como parceira privilegiada de Moçambique, está realmente comprometida com a transparência, a justiça e o aprofundamento democrático? Ou será que ao silenciar-se em momentos cruciais se torna cúmplice e até traidora de um sistema político onde a opacidade e os interesses particulares continuam a sobrepor-se ao bem comum?
A União Europeia tem financiado projectos de pacificação, fortalecimento institucional e governação democrática. Contudo, a percepção de muitos sectores políticos e sociais é de que na prática a UE mantém uma postura dúbia. Apoia oficialmente a estabilidade mas evita enfrentar de forma frontal os problemas estruturais do país, incluindo denúncias de fraude, perseguições políticas e desigualdades gritantes.
Venâncio Mondlane, por seu lado, foi claro ao acusar o embaixador europeu de falsidade. Para ele, há uma distância perigosa entre o discurso diplomático e a realidade política. A recusa de Maggiore em responder não é apenas um gesto protocolar. É interpretada por muitos como sinal de desconforto ou até de indiferença perante críticas legítimas que tocam a credibilidade da própria União Europeia.
“É necessário que os líderes internacionais, incluindo a União Europeia, deixem de se limitar às palavras e demonstrem, com acções concretas, que a sua presença não é apenas decorativa, mas de facto transformadora para o desenvolvimento democrático e a estabilidade do nosso país”, afirmou Duarte à Integrity.
Num momento em que Moçambique enfrenta desafios profundos, da violência em Cabo Delgado às crises de governação, o silêncio europeu torna-se ensurdecedor. Será que Bruxelas prefere proteger interesses geoestratégicos e económicos em vez de assumir de forma clara a defesa da democracia e da transparência?
A pergunta é inevitável e ecoa entre cidadãos atentos. A União Europeia é realmente aliada do povo moçambicano ou está a trair os princípios que tanto proclama defender? Moz24h

Leave feedback about this