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TWASSAKA WA RUANDA: O GRITO SILENCIADO DE CABO DELGADO

 

Por Jerry Maquenzi

O conflito em Cabo Delgado já não é apenas uma guerra contra insurgentes armados; é também uma guerra pela legitimidade do Estado e pela confiança das populações. Actualmente, o governo tem insistido em discursos sobre manutenção de postos de trabalho, agradecimentos por votos e mensagens de encorajamento político, como se tais palavras fossem suficientes para restaurar a esperança em comunidades profundamente feridas. Mas a realidade é mais dura: nenhum jovem deslocado, nenhum pescador ameaçado, nenhuma mulher que perdeu família encontra consolo em promessas de emprego quando a sua vida quotidiana continua marcada pelo medo, pelo luto e pela precariedade. O desfasamento entre discurso político e realidade local alimenta ressentimento e abre espaço para que outras forças, inclusive estrangeiras, conquistem o capital de confiança que o Estado perdeu.

  1. O Vídeo de Mocímboa: Quando a População Escolhe a Segurança em Detrimento da Retórica

O vídeo amador gravado em Mocímboa da Praia, onde cidadãos declaram preferir as tropas ruandesas às nacionais (MozToday, 11.09.2025), foi negado e desvalorizado pelas autoridades (Uamusse, 18.09.2025). Porém, mais do que uma provocação digital, esse registo é um termómetro social: mostra o que a população sente e pensa. Ao dizerem “Twassaka wa Ruanda”, os moradores não expressaram apenas simpatia por uma força estrangeira; expressaram desilusão em relação às forças nacionais. O episódio expõe uma clivagem profunda entre o Estado e os cidadãos: de um lado, autoridades que insistem em manter uma narrativa política de normalidade; do outro, comunidades que sentem no corpo e no quotidiano a ausência de protecção. Negar este grito popular é um erro estratégico, porque reforça a ideia de que o governo não escuta e não reconhece a realidade.

  1. Discursos de Emprego e Agradecimentos Políticos: O Erro de Politizar a Dor

Em regiões de conflito, a principal exigência das populações é segurança, não promessas de postos de trabalho. Quando líderes visitam Cabo Delgado e falam em manter empregos ou agradecem pelo voto popular, sabendo que a maioria da população nem conseguiu votar em condições seguras, o resultado é contraproducente. Esses discursos não apenas falham em tocar as prioridades locais, como também soam como insultos à dor colectiva. Politizar um território em guerra não resolve tensões; agrava-as. Emprego sem paz não fixa comunidades, votos sem segurança não criam legitimidade. A persistência nesta retórica descolada da realidade reforça o ressentimento contra o Estado e cria terreno fértil para a narrativa insurgente, que se apresenta como alternativa ao poder político dominante.

  1. A Comparação Inevitável: Ruanda Como Exemplo de Disciplina e Proximidade

A presença ruandesa em Cabo Delgado trouxe um contraste claro. Enquanto sectores das forças nacionais são acusados de práticas predatórias – assassinatos de pescadores (Moz24h, 10.09.2025; Nicuete, 11.09.2025), extorsões e abusos, os ruandeses construíram uma imagem de proximidade com as comunidades. Jogam futebol com os jovens, ajudam na construção de salas de aula (Voz de Cabo Delgado, 06.09.2025), apoiam serviços de saúde e, sobretudo, comunica-se em suahili, língua partilhada pela população da costa e também falada no planalto makonde. Esta proximidade cultural e social cria a percepção de que são “povos irmãos”. Ao contrário dos militares nacionais, que muitas vezes surgem como ameaça, os ruandeses aparecem como parceiros. O contraste é tão marcante que explica por que razão um simples vídeo amador ganha tanta força simbólica: porque revela uma escolha popular baseada em experiências reais de convivência.

  1. As Zonas de Mineração e o Planalto de Mueda: A Contestação Vai Além da Costa

Seria um erro interpretar os discursos anti-Estado como fenómeno restrito às zonas costeiras. Eles também ecoam nas áreas de mineração, onde mineradores ilegais denunciam agressões por parte de seguranças e forças policiais, e até no planalto de Mueda, outrora bastião histórico da FRELIMO. Quando até Mueda, símbolo da luta de libertação, se torna palco de críticas, fica claro que o problema já não é periférico: tornou-se estrutural. Este alastramento do descontentamento revela que a crise de confiança entre comunidades e forças nacionais não é episódica nem localizada, mas sim generalizada. E a raiz não está em “manipulações externas”, mas em práticas de abuso e ausência de liderança eficaz no terreno.

  1. A Fragmentação das Tropas Nacionais: Entre Soldados de Primeira e de Segunda

A legitimidade do exército nacional sofre ainda com a divisão interna. No terreno, é notória a distinção entre tropas de “primeira”, mais bem equipada, formada e articulada com parceiros externos, e tropas de “segunda”, deixadas à margem, sem apoio logístico e mais propenso a abusos. Essa diferenciação resulta em comportamentos opostos: enquanto uns demonstram profissionalismo, outros consomem bebidas alcoólicas em público e são vistos como predadores da própria população. Este cenário alimenta a percepção de que existem “militares bons” e “militares maus”, fragmentando a imagem institucional das FADM e corroendo a autoridade do Estado. Sem uma política clara de uniformização logística, disciplinar e formativa, esta divisão continuará a minar a credibilidade da defesa nacional.

  1. O Que as Comunidades Realmente Querem: Soluções, Não Retórica.

As populações de Cabo Delgado não pedem discursos políticos; pedem soluções concretas. Querem poder pescar sem medo de ser mortos, comerciar sem ser extorquido, enviar os filhos à escola sem receio de ataques. Querem forças disciplinadas, respeitosas e próximas. Querem ser ouvidas. Enquanto o Estado continuar a negar abusos, a ignorar queixas e a insistir em retóricas de emprego e votos, continuará a perder o capital mais importante numa guerra de insurgência: a confiança das comunidades. Sem confiança, nenhum governo vence uma guerra, por mais armas que acumule.

Conclusão

O conflito em Cabo Delgado não se resolverá com discursos partidários nem com promessas laborais. Resolver-se-á com disciplina militar, respeito comunitário, prestação de serviços públicos e reformas internas profundas nas forças de defesa. O vídeo de Mocímboa é apenas um sintoma visível de um problema estrutural: a população já não confia plenamente no seu próprio Estado. Negar essa realidade é insistir no erro. A verdadeira soberania não se conquista com palavras, mas com acções que devolvam dignidade às comunidades. Enquanto isso não acontecer, continuará a ecoar a dolorosa frase de Mocímboa: “Twassaka wa Ruanda”.

 

Referências

 

Moz24h. (10.09.2025). A população da Ilha do Ibo foi surpreendida com massacre. Disponivel em: https://moz24h.co.mz/a-populacao-da-ilha-do-ibo-foi-surpreendida-com-massacre/.

MozToday. (11.09.2025). Cabo Delgado: População de Mocímboa da Praia prefere tropas ruandesas às moçambicanas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_LW4McB5-jQ.

Nicuete, Q. (11.09.2025). Militares transformam pescadores em alvos de guerra. Disponível em: https://moz24h.co.mz/militares-transformam-pescadores-em-alvos-de-guerra/.

Uamusse, I. (18.09.2025). Estado-Maior General nega preferência pelas tropas ruandesas em Mocímboa da Praia. Disponivel em: https://opais.co.mz/comando-geral-diz-que-video-de-rejeicao-das-fds-em-cabo-delgado-e-falso/.

Voz de Cabo Delgado. (06.09.2025). Analistas consideram que construção de infraestruturas pela força de Ruanda fere soberania moçambicana. Disponivel em: https://avoz.org/analistas-consideram-que-construcao-de-infraestruturas-pela-forca-de-ruanda-fere-soberania-mocambicana/.

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