Por Quinton Nicuete
Donald Trump tornou se o “elefante na sala” mesmo sem estar presente na 39ª reunião anual da União Africana, em Addis Ababa, na Etiópia, uma cimeira em que os chefes de Estado e de Governo do continente tentam navegar entre pressões externas e os seus próprios interesses estratégicos segundo a reportagem da Al Jazeera.
As políticas de Trump relativas a tarifas, ajuda externa e imigração têm tido um impacto desproporcional em muitos países africanos e influenciam o ambiente político em que a União Africana se reúne. A administração Trump reduziu drasticamente o apoio externo tradicional dos Estados Unidos, cortando programas de ajuda de larga escala e optando por um modelo de relações bilaterais mais transaccional, centrado em recursos e segurança, segundo a Al Jazeera.
Especialistas apontam que essa mudança estrutural, desde a desvinculação de grandes programas de desenvolvimento até à imposição de tarifas que afectam exportadores africanos, cria uma sensação de incerteza entre os líderes africanos. Trump impôs novas tarifas sobre produtos de vários países africanos, com taxas que inicialmente chegaram a níveis muito elevados antes de serem reduzidas em alguns casos, o que acrescenta pressão sobre economias que dependem das exportações para gerar emprego e divisas, relata a Al Jazeera.
Para muitos líderes que participam da cimeira, o desafio é encontrar um equilíbrio estratégico. Por um lado, há interesse em evitar confrontos directos com Washington, dada a importância histórica dos Estados Unidos como parceiro económico e de segurança. Por outro, a política de aproximação exclusiva aos Estados Unidos tem sido acompanhada por uma expansão das relações com outras potências globais, como a China e estados do Golfo, reflectindo a intenção de diversificar parcerias e reduzir a dependência.
A abordagem adoptada por várias capitais africanas perante as políticas de Trump tem sido descrita como de “ambiguidade estratégica”: manter um discurso aberto à cooperação com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que se reforçam laços com outras potências e se defendem posições firmes em questões de interesse africano no plano internacional.
Esse equilíbrio delicado também se reflecte nos temas que ganham destaque na agenda da União Africana, desde a defesa do direito internacional e do multilateralismo até à justiça global, inclusive em conflitos como o de Israel e Gaza, onde vários Estados africanos têm adoptado posições críticas que nem sempre coincidem com a política externa norte americana, avança a Al Jazeera.
Analistas sublinham que, mesmo em sua ausência física, Trump molda o contexto das discussões no principal fórum político do continente, desafiando os líderes africanos a afirmarem maior autonomia estratégica nas suas relações externas, enquanto procuram assegurar apoio económico e político sem comprometer a sua soberania e prioridades regionais. Moz24h

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