Por Quinton Nicuete
Cabo Delgado, Moçambique – Julho de 2025
Quando o inimigo é tratado com silêncio… e o povo com repressão
Enquanto o norte de Moçambique mergulha num conflito que já dura mais de oito anos, a grande dúvida continua a ecoar entre os que vivem no centro da crise: estamos mesmo a lutar contra o terrorismo, ou a prolongar deliberadamente uma situação que se transformou num negócio altamente rentável?
A passividade das Forças de Defesa e Segurança (FDS) tem deixado a população à mercê dos ataques. Em localidades como Ancuabe, relatos de insurgentes a circular a poucos quilómetros de quartéis tornaram-se frequentes mas, na maioria dos casos, não há resposta imediata. As tropas chegam quando já é tarde demais. A pergunta impõe-se: porquê?
Terroristas à solta. Mas é nas manifestações que o Estado mostra força
A disparidade de respostas é gritante. Quando jovens marcham pelas ruas a exigir direitos básicos — água, segurança, educação o aparato policial e militar surge com rapidez e força desproporcional: blindados, Mahindras e a Unidade de Intervenção Rápida (UIR) são imediatamente destacados para reprimir os manifestantes.
Mas quando os terroristas actuam, mesmo com informações prévias da população, o Estado quase não se mexe. Este contraste tem gerado revolta: por que razão o governo actua com tanta energia contra civis desarmados, mas se mostra lento e ineficaz diante de grupos armados que espalham o terror?
O conflito como negócio?
Em conversas com deslocados e líderes comunitários, é recorrente a suspeita de que a guerra se tornou uma “bolada” para alguns. Há relatos de fornecimentos intencionais de alimentos e bens aos insurgentes, aproveitamento de contratos de emergência, e desvios de apoio logístico.
“Parece que eles vendem comida aos terroristas, fazem lucro e fingem que não sabem de nada”, contou um residente reassentado em Ancuabe.
O prolongamento do conflito interessa a muitos menos ao povo. Cada novo ataque reforça a dependência de apoios, fundos e operações especiais mas a paz nunca chega.
Exemplo recente: o caso de Ancuabe
Vários relatos dão conta de insurgentes a circular livremente em áreas de Ancuabe, durante dias seguidos, sem qualquer resposta das FDS. Em algumas ocasiões, passam por zonas sensíveis entre Metoro, Nacuale e Cujupane, e só depois de abandonarem os locais é que as forças aparecem.
A população avisa, denuncia, implora. Mas as respostas são tardias ou inexistentes. O medo cresce e a confiança no Estado esvai-se.
Apoio internacional também perdeu força
A presença das forças ruandesas trouxe algum alívio temporário, mas não cobre todo o território em risco. E algumas promessas internacionais de apoio já foram retiradas. Muitos observadores começam a perceber que o problema não reside apenas nos terroristas, mas também na falta de estratégia, vontade e seriedade por parte de quem deveria proteger os cidadãos.
Terrorismo… ou teatro conveniente?
A pergunta que hoje circula nas comunidades deslocadas, nas vilas, e até entre alguns membros das próprias instituições do Estado é directa e perturbadora:
“Isto é uma guerra contra o terrorismo… ou um espectáculo bem montado para alimentar interesses ocultos?”
Até quando o povo vai continuar sozinho?
O que se vive em Cabo Delgado é mais do que uma crise de segurança: é uma crise de confiança no Estado. A ausência de respostas rápidas, a repressão selectiva e os negócios obscuros com a guerra mostram que há muito mais em jogo do que a luta contra o extremismo.
O povo precisa de protecção real, justiça e paz. E o Estado deve escolher de que lado está.
Esta crónica é baseada em testemunhos de campo, observação directa e cruzamento de fontes locais em Cabo Delgado. O autor, Quinton Nicuete, é jornalista freelancer especializado em cobertura de conflitos, direitos humanos e desenvolvimento comunitário. ( Moz24h)
