No aeroporto a multidão espera
Venâncio Mondlane pisa o chão
O ar turva-se, a fumaça prospera
Gás lacrimogéneo sufoca a visão
Estado de Sítio, respiração que desespera
Isaltino Matlasse avisa: “ambiente aquecido”
A câmara do YouTube treme, mas não é emoção
É o corpo a arder, peito ferido
O povo recua sem outra opção
Foge da nuvem, pulmão destruído
Quem vende na rua não pede destino
Mas paga o preço de estar no lugar
Nuvens venenosas marcam o caminho
O directo regista sem precisar explicar
Ali a política mostra o seu desatino
Matlasse pergunta: “vida política, afinal?”
Mas vida política de quê, em verdade?
De tosses, fugas, silêncio fatal?
De gás que apaga a dignidade?
O povo é alvo, não sujeito social
Eis que Anamola nasce na contradição
Promessa de voto limpo, voz erguida
Contra a fraude suja, contra a opressão
Mostrando a farsa de urna perdida
Legitimidade sufocada na própria respiração
Traoré ergue-se, Burkina Faso a inspirar
Africanismo vivo, autonomia que não cede
Duas chapadas na face de quem veio mandar
O continente aprende: só a sua voz procede
E a liberdade nasce onde o povo ousa lutar
por Ismael Miquidade,
Cadernos de Poesia “Faísca no Chão”
