Por: Quinton Nicuete | Moz24h
O assassinato de um homem a tiros na noite de quarta-feira, 11 de junho, no bairro Nkobe, em Matola, tornou-se ainda mais intrigante pelas contradições nas comunicações oficiais da Polícia da República de Moçambique (PRM). O caso envolve um agente identificado como Superintendente Principal Carlos Rafael Zandamela, chefe da Repartição de Reconhecimento da Unidade de Intervenção Rápida (UIR). No entanto, a sequência de eventos expôs falhas no protocolo, gerando descrédito público.
Na quinta-feira, 12 de junho, o porta-voz da PRM em Maputo afirmou à comunicação social que a identidade da vítima ainda não estava confirmada e que não havia certeza de que se tratasse de um agente da PRM. Essa declaração ocorreu um dia após a ocorrência do crime, mesmo com a polícia aparentemente presente no local do homicídio e responsável pelo transporte do corpo. Já na sexta-feira, 13 de junho, o corpo foi sepultado com honras policiais. Esse gesto institucional indica que a PRM já reconhecera o falecido como seu integrante, o que contrasta diretamente com a posição oficial divulgada na véspera.
No domingo, 15 de junho, o Comando-Geral da PRM emitiu comunicado oficial confirmando que a vítima era Carlos Rafael Zandamela, chefe de Repartição da UIR. O documento revelou que o porta-voz provincial não negou a condição de membro da PRM, mas afirmou que não dispunha na altura de elementos suficientes para confirmação. O comunicado nacional criticou órgãos de comunicação por interpretarem a declaração como negação categórica, ainda que essa leitura estivesse, na prática, em linha com as afirmações públicas anteriores.
A sequência revela falhas graves na comunicação institucional: Ao afirmar desconhecer a identidade de um suposto agente, o porta-voz ignorou sinais internos de reconhecimento; Ao realizar o funeral com honras, a PRM indicou que já havia confirmação institucional da identidade; Ao retificar o naco recuado, o Comando-Geral confirmou o que já fora pressuposto pela imprensa, reforçando dúvidas acerca dos controles internos da instituição.
A incoerência entre as respostas das estruturas provinciais e nacionais minou a confiança pública. Espera-se que agora a PRM esclareça por que demorou na identificação oficial, por que agiu com honras antes de reconhecimento formal e como garante a consistência em sua comunicação pública.
Tais lapsos abrem caminho para questionamentos sobre a eficácia dos procedimentos internos e a clareza no relacionamento entre a polícia e a população. Em momentos críticos como este, o silêncio ou a neutralidade confiável seriam preferíveis a declarações que se contradizem.

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