Sociedade

REGIME DO NOVO APARTHEID AMBIENTAL EM MOÇAMBIQUE

Por Tiago J.B. Paqueliua

Em Moçambique, o pobre é tratado como intruso na sua própria terra. No Parque Nacional de Magoe, quinze pessoas morreram e dez ficaram gravemente feridas em seis meses — vítimas não de animais selvagens, mas do abandono do Estado. As autoridades recomendam que não se espantem os elefantes, mesmo quando estes destroem culturas e ceifam vidas.

Isto não é conservação. É apartheid ambiental.

A Constituição da República consagra o direito à vida (Art. 40) e à terra (Art. 109). Ainda assim, comunidades rurais são reassentadas, criminalizadas e sacrificadas por modelos importados de conservação que colocam os animais acima das pessoas.

Uma ecologia justa, como lembra o Papa Francisco na Laudato Si’, deve ter o ser humano no centro. Não há integridade ecológica sem dignidade humana.

A política atual reflete uma lógica colonial: conservar a natureza para o turismo estrangeiro e silenciar os que sofrem. Os elefantes são protegidos; os camponeses, esquecidos.

Chamemos isto pelo nome: neocolonialismo verde, racismo ecológico, abandono institucional.

Conservar não pode significar matar. Justiça — legal, ecológica e moral — exige reformas urgentes.

A terra pertence a quem nela vive, trabalha e chora. Não aos mapas de uma natureza sem povo.

 

 

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