Sociedade

Ancuabe aos 54 anos: vila esquecida vive ainda da herança colonial

 

Por Quinton Nicuete

Ancuabe, Cabo Delgado – Passadas mais de cinco décadas, Ancuabe, celebrou semana finda o  Quinquagésimo quarto aniversário da vila, continua a enfrentar carências estruturais profundas. Apesar de alguns avanços pontuais, a realidade no terreno mostra que 95% das infraestruturas públicas ainda são as deixadas pelo colono, restando apenas 5% erguidas depois de 1975. Só para citar. A secretária distrital, as residências protocolar, o comando distrital.

A população aponta mais como exemplo a rádio comunitária local. Em vez de um edifício novo e adequado, foi reabilitada uma antiga casa de adobe e cal, estrutura precária ate o tecto cai em queda livre que em nada se assemelha a um espaço moderno de comunicação social.

Outro caso é a escola secundária iniciada em 2022, que permanece abandonada, sem qualquer impacto na vida dos estudantes locais.
Ainda tem o actual edifício que funciona o balcão de atendimento do BIM, pertence ao extinta empresa Correios de Moçambique enquanto outros distritos se beneficiam de plantas de engenharia moderna.

O fornecimento de água potável é um dos problemas mais críticos. A vila não dispõe de ligações domiciliares e, na baixa, as torneiras estão secas há três anos. Nos dois principais bairros, Ntuto e Namcapa, quando há água disponível, esta é considerada imprópria para consumo.

A distribuição desigual agrava ainda mais a insatisfação: na zona cimento, a água chega apenas à casa do administrador, enquanto o resto da população depende de fontes pouco seguras.

A rede viária também é motivo de queixas constantes. A estrada que liga a sede distrital é descrita pelos residentes como um autêntico tormento, devido à poeira e ao desgaste permanente.

Embora a extensão dos principais troços não ultrapasse 35 quilómetros, Nacussa–Ancuabe, Metoro–Ancuabe e Nacololo–Ancuabe, obras de asfaltagem nessas estradas continuam sendo um sonho do povo que vive na terra rica em recursos naturais. Em contraste, distritos vizinhos já conseguem pavimentar mais de 100 quilómetros de estrada.

Apesar das dificuldades, algumas infraestruturas foram erguidas nos últimos anos. Entre elas, destacam-se alguns edifícios como a Procuradoria Distrital, alguns centros de saúde, o posto sede e a construção em curso do edifício do INSS.

Contudo, estes projectos são vistos como insuficientes face às necessidades de uma população crescente e com múltiplos desafios sociais.

Para além das escolas, estradas e água potável, a vila continua sem serviços básicos considerados essenciais: não existe mercado distrital estruturado, nem campo desportivo digno, biblioteca pública ou centro cultural.

A juventude, maioritária no distrito e dependente da agricultura de subsistência, sente-se particularmente penalizada pela falta de oportunidades e pela ausência de investimento público consistente.

Mais de meio século após a independência, Ancuabe continua a viver sobretudo da herança colonial. A falta de planeamento, a execução deficiente de obras públicas e a ausência de serviços básicos alimentam a frustração de uma população que vive reclamando melhores condições de vida enquanto alguns dirigentes se focam no desvio de fundos.

Para muitos residentes, a vila é hoje o reflexo de promessas sucessivas sem concretização, estradas poeirentas, torneiras secas e escolas abandonadas que se tornaram símbolos de uma esperança ainda adiada. Moz24h

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