Palma denuncia isolamento de Afungi e incumprimento de acordos no projecto Mozambique LNG. Novo colonato?
Por Quinton Nicuete
A população de Palma acusa a Total Energies, multinacional francesa líder do projecto Mozambique LNG, de incumprimento de acordos, injustiças e tentativa de isolamento da península de Afungi, no distrito de Palma, em Cabo Delgado. Os residentes e empresários pedem um encontro direto com o Presidente da República e com os accionistas da empresa para resolver os problemas ligados à exploração de gás na Área 1 da bacia do Rovuma.
Segundo um artigo publicado pela STV Notícias, quase todas as empresas subcontratadas pelo projecto, incluindo trabalhadores que antes viviam na vila de Palma, foram transferidos para a península de Afungi, onde as medidas de segurança foram reforçadas e o acesso é agora altamente restrito.
“Hoje, para chegar a Afungi, parece que já estamos noutro país e não em Moçambique. Até os próprios militares ruandeses, que antes faziam compras junto da população, deixaram de o fazer. Tudo está fechado”, relatou um residente à STV Notícias.
Além do isolamento, a população acusa a Total Energies de não cumprir com os acordos firmados no passado. Segundo relatos, valores prometidos em indemnizações e compensações nunca foram pagos na totalidade, deixando muitos habitantes sem alternativas de subsistência.
“Desde 2015 até hoje, a juventude de Palma está a sofrer. Não temos empregos e somos excluídos das oportunidades ligadas ao gás. Dizem que não sabemos trabalhar, mas ninguém aprende sem ter a oportunidade de fazer”, lamentou um jovem local.
Empresários e comerciantes também dizem sentir-se enganados. Muitos investiram em hotéis, bares, restauração e transporte, na expectativa de beneficiar com a retoma do projecto, mas enfrentam hoje uma crise profunda.
“Antes conseguíamos faturar diariamente. Hoje, se conseguimos 100 meticais num dia de taxi-mota, é sorte. O negócio está parado, não temos clientes”, desabafou um taxista motorizado.
Outro empresário contou que tinha três camiões para transporte, mas devido à instabilidade e ao colapso da procura, só um ainda circula: “Cheguei a fazer três cargas por semana em cada camião, hoje consigo uma por mês. Os rendimentos caíram totalmente”.
De acordo com a reportagem da STV Notícias, muitos investidores locais já começaram a vender os seus bens e outros ponderam abandonar Palma, caso o isolamento de Afungi continue. Para eles, a decisão representa uma traição, sobretudo depois de terem regressado à vila e reinvestido, acreditando que o reforço da segurança permitiria o relançamento do projecto.
“Voltámos porque acreditámos na presença das forças estrangeiras que trouxeram alguma estabilidade, mas agora sentimos que fomos enganados. Palma está a morrer”, lamentou um empresários local.
A população exige que o governo pressione a Total Energies a reabrir as portas de Afungi e a permitir que os negócios locais participem na retoma do projecto. Para muitos, a esperança de desenvolvimento da vila depende directamente da integração com a exploração de gás.
“Se a Total não abrir as portas, várias empresas vão fechar, muitos jovens vão ficar sem alternativas e as consequências poderão ser graves”, alertou um grupo de comerciantes.
A STV Notícias tentou ouvir a Total Energies, mas não obteve resposta. Do lado do governo distrital de Palma, o administrador disse por telefone que estava ausente, enquanto a secretária permanente, inicialmente disponível, acabou por recusar prestar declarações.
O projecto Mozambique LNG, avaliado em mais de 20 mil milhões de dólares norte-americanos, continua oficialmente suspenso desde 24 de Março de 2021, devido ao agravamento da situação de terrorismo mas até agora sem anúncio de data para a retoma. Moz24h

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