A insurgência armada que começou na madrugada de 5 de Outubro de 2017, em Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado, transformou-se numa das crises de segurança e humanitárias mais graves de Moçambique. Ao longo de nove anos, o conflito provocou milhares de mortes, raptos, destruição de aldeias, deslocações em massa e sucessivas operações militares, sem que a ameaça tenha sido completamente eliminada.
5 de Outubro de 2017 — Mocímboa da Praia: o início da insurgência
Os primeiros ataques ocorreram na madrugada de 5 de Outubro de 2017, quando um grupo de homens armados atacou postos policiais e outras instalações das autoridades em Mocímboa da Praia. Os atacantes procuravam armas e munições e envolveram-se em confrontos com as forças de segurança. O episódio, que causou várias mortes, marcou o início de uma insurgência que viria a alastrar a outros distritos de Cabo Delgado.
Nos meses seguintes, a violência começou a atingir comunidades rurais, com ataques a aldeias, incêndios de habitações e agressões contra civis. Em 2018, os ataques tornaram-se mais frequentes e brutais, incluindo episódios de decapitação e raptos.
2018 — A violência alastra às comunidades rurais
A 13 de Janeiro de 2018, homens armados atacaram Olumbi, no distrito de Palma, num dos primeiros episódios que demonstraram a expansão territorial da violência. A 27 de Maio do mesmo ano, um ataque em Monjane, também em Palma, provocou a morte de pelo menos dez pessoas, incluindo crianças, segundo relatos divulgados na época.
Entre Maio e Junho, várias aldeias dos distritos de Macomia, Quissanga e Nangade foram atingidas. As incursões deixaram mortos, casas destruídas e comunidades aterrorizadas, enquanto as autoridades procuravam identificar os responsáveis e conter a propagação dos ataques.
2019 — Emboscadas e ataques persistentes
Em 2019, os insurgentes intensificaram as incursões contra aldeias, civis e posições das forças de segurança. Os ataques passaram a combinar emboscadas, incêndios, pilhagens e raptos, dificultando a circulação nas zonas afectadas.
A violência manteve-se apesar das operações governamentais e da presença reforçada das forças de segurança. Em várias localidades, os habitantes começaram a abandonar as suas casas por receio de novos ataques, dando início a movimentos de deslocação que aumentariam significativamente nos anos seguintes.
2020 — Ocupação de vilas e escalada da violência
O ano de 2020 representou uma viragem no conflito. A 23 de Março, os insurgentes ocuparam temporariamente Mocímboa da Praia, atacando instalações públicas e demonstrando capacidade para coordenar ofensivas contra centros urbanos. Dois dias depois, a 25 de Março, atacaram a sede distrital de Quissanga.
A 7 de Abril, um massacre em Xitaxi, no distrito de Muidumbe, provocou a morte de dezenas de pessoas, segundo relatos da época. A 28 de Maio, os insurgentes atacaram Macomia, voltando a demonstrar a vulnerabilidade de sedes distritais perante ofensivas organizadas.
A 27 de Junho, Mocímboa da Praia voltou a cair nas mãos dos insurgentes. A ocupação prolongada da vila, importante centro administrativo e portuário, evidenciou as dificuldades das forças governamentais em recuperar e manter o controlo territorial.
A escalada da violência atingiu também trabalhadores ligados aos projectos económicos da província, enquanto milhares de residentes fugiam das zonas afectadas.
Março de 2021 — O ataque a Palma e a crise em torno do projecto de gás
Entre 24 e 26 de Março de 2021, Palma foi palco de uma das ofensivas mais marcantes da insurgência. Homens armados entraram na vila por diferentes direcções, atacaram instalações públicas e privadas e provocaram a fuga de milhares de habitantes.
Trabalhadores moçambicanos e estrangeiros ficaram encurralados em instalações de empresas e no Hotel Amarula, enquanto se organizavam operações de evacuação por terra, mar e ar. Houve mortes durante os confrontos e nas tentativas de fuga, embora o número exacto de vítimas permaneça sujeito a diferentes estimativas.
O ataque teve consequências directas para o projecto de gás natural liquefeito da Área 1, liderado pela TotalEnergies. Em Julho de 2021, a empresa declarou força maior e suspendeu as actividades do projecto, na sequência da deterioração da segurança.
No mesmo período, Moçambique recebeu apoio militar do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), através da SAMIM. As operações conjuntas contribuíram para a recuperação de localidades anteriormente ocupadas pelos insurgentes, incluindo Mocímboa da Praia, retomada em Agosto de 2021.
2022 — A violência ultrapassa Cabo Delgado
Apesar da recuperação de várias sedes distritais, os ataques não cessaram. Em 2022, os insurgentes passaram a actuar em grupos móveis, realizando incursões contra aldeias e posições de segurança e procurando áreas menos protegidas para continuar as operações.
Em Maio, registou-se um aumento significativo de episódios violentos em Cabo Delgado, com ataques em distritos como Muidumbe, Palma, Mocímboa da Praia, Meluco, Macomia e Quissanga.
Em Outubro, a violência chegou de forma mais evidente aos distritos de Eráti e Memba, na província de Nampula. Os ataques e as ameaças provocaram novas deslocações de famílias, algumas das quais já tinham fugido anteriormente de Cabo Delgado.
2023 — Civis continuam entre os principais alvos
Em 2023, a insurgência continuou a produzir ataques contra comunidades, posições militares e infra-estruturas locais. Em diferentes episódios, foram relatadas mortes de civis, decapitações, incêndios de habitações e raptos.
A violência afectou igualmente comunidades religiosas e pequenos núcleos populacionais em áreas rurais. A dispersão dos ataques dificultou a protecção dos habitantes, sobretudo nas zonas distantes dos principais centros administrativos e militares.
Apesar das operações de segurança, o conflito continuou a alimentar a instabilidade e a impedir o regresso definitivo de muitas famílias às suas zonas de origem.
2024 — Macomia volta a ser atacada e Chiúre enfrenta novas deslocações
Em Abril de 2024, uma nova vaga de violência atingiu os distritos de Ancuabe e Chiúre, em Cabo Delgado, e estendeu-se a Eráti, em Nampula. Foram relatados incêndios de habitações, ataques a comunidades e novas fugas da população.
Entre 17 e 29 de Abril, a Organização Internacional para as Migrações registou 38.299 pessoas deslocadas devido à violência em Chiúre, evidenciando o impacto humanitário da ofensiva.
A 10 de Maio, os insurgentes atacaram novamente a sede distrital de Macomia, provocando confrontos com as forças governamentais. O episódio ocorreu numa altura de mudanças na presença militar regional, levantando preocupações sobre a capacidade de manter a segurança nas áreas recuperadas.
2025 — Novas ofensivas e agravamento da crise humanitária
Em 2025, os ataques voltaram a intensificar-se em várias zonas de Cabo Delgado, com incursões em aldeias, raptos, mortes de civis e destruição de habitações. A violência afectou igualmente áreas da província de Nampula, obrigando milhares de pessoas a abandonar as suas casas.
Entre os episódios reportados encontram-se ataques em Mapate, no distrito de Muidumbe, em Agosto, e em Xaxaxa, no distrito de Meluco, em Setembro. Em Outubro, foram registados novos incidentes em Palma, Mocímboa da Praia e zonas de Nampula.
A sucessão de ataques voltou a expor a vulnerabilidade das comunidades rurais, particularmente dos agricultores, pescadores e famílias que dependem da circulação pelas estradas para garantir a subsistência.
Em Novembro, uma nova vaga de deslocações agravou a pressão sobre as comunidades de acolhimento e as organizações humanitárias, num contexto em que muitas famílias continuavam sem condições para regressar às suas zonas de origem.
2026 — A ameaça alcança Niassa e mantém-se activa em Cabo Delgado
Em 2026, a insurgência voltou a demonstrar capacidade de deslocação entre províncias. No final de Julho, grupos armados foram reportados nas zonas de Montepuez e Balama, em Cabo Delgado, seguindo-se confrontos com as forças governamentais.
A 3 de Setembro, um ataque contra um acampamento de caça turística nas proximidades de Marrupa, província do Niassa, provocou mortes e raptos, segundo informações divulgadas na época. A ocorrência reforçou as preocupações sobre a expansão geográfica da ameaça para além de Cabo Delgado e Nampula.
Em Setembro, foram ainda reportados ataques contra civis em distritos como Muidumbe, Macomia e Mocímboa da Praia. Entre os incidentes divulgados constam mortes, alegadas decapitações, raptos e pilhagens, embora os números e os pormenores de alguns episódios permaneçam por confirmar de forma independente.
À medida que se aproxima o nono aniversário da insurgência, a persistência destes ataques demonstra que a recuperação de centros urbanos e a realização de operações militares não foram suficientes para garantir segurança duradoura a todas as comunidades.
Nove anos depois, uma crise ainda sem solução definitiva
Desde Outubro de 2017, a insurgência alterou profundamente a vida em Cabo Delgado. Milhares de pessoas perderam familiares, casas e meios de subsistência; comunidades inteiras foram deslocadas; escolas, unidades sanitárias e actividades económicas foram interrompidas; e os projectos de exploração de gás passaram a operar num ambiente marcado por riscos de segurança.
A resposta militar, com o envolvimento das forças moçambicanas, ruandesas e da SAMIM, permitiu recuperar territórios e reduzir a capacidade dos insurgentes de manter o controlo prolongado de algumas localidades. Contudo, a persistência de ataques, raptos e deslocações demonstra que a ameaça continua activa.
Deslocamento em massa e uma resposta humanitária cada vez mais limitada
Ao longo dos nove anos de conflito, o terrorismo no norte de Moçambique não provocou apenas mortes, destruição de aldeias e perda de meios de subsistência. Produziu também uma das maiores crises de deslocamento interno do país. Desde 2017, cerca de 1,3 milhão de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas em consequência da violência, muitas delas mais de uma vez, à medida que os ataques se deslocaram para novas zonas de Cabo Delgado e, posteriormente, para partes de Nampula e Niassa. Em Março de 2025, mais de 461 mil pessoas permaneciam deslocadas devido ao conflito no norte do país, enquanto centenas de milhares de outras já tinham regressado às suas zonas de origem, muitas sem condições adequadas para reconstruir as suas vidas.
Para muitas famílias, fugir tornou-se uma rotina de sobrevivência. Há pessoas que abandonaram as suas comunidades sem alimentos, documentos, dinheiro ou outros bens essenciais, procurando abrigo em casas de familiares, comunidades de acolhimento, escolas e centros de reassentamento. O problema agravou-se à medida que os próprios locais que recebem deslocados passaram a enfrentar pressão sobre água, alimentos, saúde, educação, habitação e oportunidades de rendimento.
A situação humanitária tornou-se ainda mais complexa com a combinação entre o conflito armado e os fenómenos climáticos extremos. Ciclones, cheias e secas atingiram comunidades que já acolhiam famílias deslocadas, destruindo casas e infra-estruturas e aumentando a necessidade de assistência. Em 2025, a ONU estimava que cerca de 1,3 milhão de pessoas tinham sido deslocadas em Moçambique por uma combinação de conflito, fenómenos climáticos e outras crises.
A falta de financiamento passou a ser um dos principais obstáculos à resposta. As organizações humanitárias enfrentam necessidades crescentes ao mesmo tempo que os recursos disponíveis diminuem. Em 2025, o Programa Mundial de Alimentação (PMA/WFP) reduziu significativamente o número de pessoas apoiadas no país devido à falta de fundos: de cerca de um milhão de beneficiários em 2024 para aproximadamente 345 mil em 2025. No norte, a assistência alimentar passou, em determinadas situações, a ser distribuída em intervalos maiores, deixando famílias vulneráveis durante períodos prolongados sem apoio regular.
A escassez de recursos afecta também a protecção de mulheres, crianças e outras pessoas particularmente vulneráveis. Serviços de apoio psicossocial, assistência jurídica, abrigo, documentação civil, prevenção da violência baseada no género e apoio aos meios de subsistência enfrentam limitações. Em Cabo Delgado, por exemplo, o número de espaços seguros para mulheres apoiados pelo ACNUR diminuiu de 15 em 2024 para 11 em 2025, num momento em que a violência e o deslocamento continuavam a expor mulheres e raparigas a novos riscos.
O problema agravou-se novamente no segundo semestre de 2025, quando uma nova vaga de ataques provocou deslocamentos rápidos em vários distritos. Em Setembro daquele ano, quase 22 mil pessoas fugiram das suas casas em apenas uma semana, segundo o ACNUR. Em Dezembro, a agência estimava que perto de 100 mil pessoas tinham sido deslocadas em apenas duas semanas, numa altura em que a violência se espalhava para áreas anteriormente consideradas mais seguras.
O resultado é uma crise prolongada em que regressar para casa nem sempre significa recuperar a vida anterior. Muitas comunidades encontram as suas casas destruídas, campos abandonados, escolas e unidades sanitárias danificadas ou serviços públicos insuficientes. Mesmo entre os que regressaram, persistem dificuldades para obter alimentos, reconstruir habitações, recuperar documentos e encontrar meios de subsistência.
Nove anos depois do início da insurgência, o deslocamento permanece, assim, como uma das marcas mais profundas do conflito. A sobrevivência de centenas de milhares de pessoas continua dependente de uma resposta humanitária que, apesar do trabalho do Governo, das Nações Unidas, organizações não-governamentais e das próprias comunidades de acolhimento, enfrenta uma equação cada vez mais difícil: mais pessoas necessitam de assistência, enquanto os fundos disponíveis são insuficientes para acompanhar a dimensão das necessidades.
Nove anos depois do primeiro ataque em Mocímboa da Praia, permanecem questões fundamentais sobre a protecção dos civis, o regresso seguro dos deslocados, a responsabilização pelos crimes cometidos e as condições necessárias para restabelecer a confiança das populações nas instituições públicas.
A história da insurgência em Cabo Delgado é, assim, também a história de comunidades que continuam a viver entre o medo, a perda e a esperança de recuperar uma vida normal. (Moz24h)

