Quando o quintal se enche de ratazanas,
não se pesa a moral nem a sorte.
Enterra-se o barril — mãos soberanas —,
tampa de ferro, óleo e um toque de corte.
Um aroma leve atrai o bando ao chão,
óleo de coco, restos de matori-tori;
só o bastante — discreta sedução —,
sem alarde, sem pressa, num gesto sonoro e sorri.
A sabedoria antiga não se cansa,
cumpre o costume, o gesto sem demora.
O povo herda limites, não esperança,
método e abrigo lhe fazem história.
Rattus rattus, roedores insolentes,
sobem a tronos, roem seus retratos;
no ciclo velho, reis e presidentes
confundem-se ao festim dos próprios ratos.
Senhores camaradas, vergonha nacional,
luto do povo, sombra de desvelo.
As ratazanas dançam no ritual,
roem discursos, leis, símbolos e selo.
Não se queima o que já se dispersa,
o ciclo persiste, lento e altaneiro;
uma a uma devoram o nome, a empresa,
mas a terra resiste, firme e inteira.
Libertam-se — mas só do antigo vício —,
fedor da espécie repousa no chão.
A natureza cumpre o seu ofício,
sem piedade, glória ou perdão.
Higiene antiga, lição sem memória,
final inconsequente,
gáudio da plebe:
fecha-se assim a história nacional.
*Ismael Miquidade in “Cadernos de Poesia — Faísca no Chão”
Glossário e Notas
Ratazanas – Figura central da metáfora; representam a corrupção, a decadência moral e política, ou a voracidade dos que exploram o bem público;
Barril / tampa de ferro / óleo e corte – Símbolos de contenção e de método antigo: a sabedoria prática e popular de resolver o que apodrece, sem discursos;
Óleo de coco / restos de matori-tori – Elementos poéticos de atracção, aqui usados como metáforas subtis para a forma como o poder e o vício se revelam quando expostos;
Rattus rattus – Nome científico do rato-preto;
Roedores insolentes – Metonímia dos poderosos / oportunistas que consomem o próprio sistema;
Senhores camaradas – Ironia dirigida a todas as classes políticas e ideológicas; “camaradas” inclui tanto o discurso revolucionário quanto o institucional;
Festim dos próprios ratos – Imagem de autodestruição do poder: os que dominam acabam por devorar-se entre si.Fedor da espécie – O legado moral que permanece após o colapso: o cheiro simbólico da corrupção entranhada;
Higiene antiga – Ideia de purificação inevitável, natural, sem glória ou heróis; o país sobrevive pela simples persistência da terra;
Final inconsequente / gáudio da plebe – Conclusão amarga: o povo observa, entre riso e cansaço, o desfecho previsível da repetição histórica.