Por Quinton Nicuete
Maputo, 15 de Outubro de 2026 — Líderes e representantes de organizações africanas defenderam, esta quarta-feira, 14 de Outubro, em Maputo, a necessidade de o continente reforçar a sua unidade política, aumentar a influência nas instituições internacionais e transformar os recursos naturais em riqueza para as suas populações, no contexto da reorganização da ordem mundial.
As posições foram apresentadas durante a abertura do encontro de alto nível Africa and the Remaking of Global Power: Multilateralism, Resource Sovereignty and the Politics of Resourcing, que decorre de 14 a 16 de Outubro, no Radisson Blu Maputo, reunindo decisores políticos, académicos, representantes da sociedade civil, organizações filantrópicas e actores do sector privado.
Na sessão de abertura, as intervenções convergiram na necessidade de ultrapassar os debates e as recomendações políticas e avançar para acções concretas que permitam a África participar na definição das regras económicas e políticas internacionais, em vez de permanecer dependente de decisões tomadas por outras potências.
Pravina Makan-Lakha, representante da Open Society Foundations (OSF), afirmou que os países africanos e o conjunto do Sul Global devem deixar de ser apenas participantes num sistema multilateral cujas decisões são frequentemente tomadas fora do continente e passar a contribuir directamente para a definição das instituições e dos mecanismos económicos que condicionam o seu futuro.
Segundo a responsável, África dispõe de conhecimento, capacidade de investigação e propostas para responder aos seus desafios, mas enfrenta dificuldades em transformar essas ideias em estratégias coordenadas, alianças políticas e resultados concretos.
“África não sofre de falta de ideias”, afirmou, defendendo que o principal desafio consiste em converter o conhecimento produzido pelas universidades, organizações da sociedade civil, comunidades e movimentos sociais em capacidade efectiva de negociação e influência internacional.
Makan-Lakha apelou igualmente à construção de coligações entre diferentes sectores, gerações e regiões do continente, considerando que a reforma do sistema multilateral exige uma posição africana mais articulada.
A representante da OSF defendeu ainda que os minerais críticos de África devem servir de base à transformação económica, à industrialização e à prosperidade partilhada, em vez de perpetuarem relações de exploração e exportação de matérias-primas sem valor acrescentado local. Acrescentou que as mulheres e os jovens devem ocupar uma posição central nos processos de decisão.
Por sua vez, Graça Machel, representante do Graça Machel Trust, apelou à passagem do diálogo para a implementação de medidas concretas, defendendo que os participantes devem sair do encontro com compromissos claros e mecanismos de acompanhamento até à próxima reunião.
A activista moçambicana manifestou satisfação pelo facto de o encontro decorrer em Maputo e considerou que a realização da conferência em Moçambique constitui uma oportunidade para o país acolher um debate estratégico sobre o papel de África na transformação da ordem mundial.
Graça Machel advertiu, contudo, que a realização de reuniões e a formulação de recomendações não são suficientes se não forem acompanhadas por acções capazes de produzir mudanças.
A responsável defendeu igualmente uma maior articulação entre as diferentes regiões africanas, observando que os esforços desenvolvidos sobretudo na África Austral precisam de convergir com as iniciativas de outras partes do continente, de modo a fortalecer uma posição comum.
Para Graça Machel, África deve agir com sentido de urgência, tendo em conta a rapidez com que as relações internacionais e as estruturas de poder estão a mudar. Segundo afirmou, o continente corre o risco de perder oportunidades se não definir atempadamente os seus interesses e prioridades.
Machel destacou ainda a importância do jornalismo de investigação na promoção da transparência, da responsabilização e da defesa do interesse público, encorajando os jornalistas a aprofundarem as suas investigações e a exporem questões que afectam as sociedades africanas.
A activista defendeu a necessidade de transformar o conhecimento e os debates em acções concretas, uma missão para a qual o jornalismo de investigação pode contribuir ao revelar irregularidades, questionar os centros de poder e acompanhar a aplicação das decisões e dos compromissos assumidos pelas instituições.
A antiga presidente da Comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini Zuma, também colocou a unidade africana no centro da sua intervenção, defendendo que o continente só poderá exercer influência efectiva na nova ordem mundial se os seus países conseguirem falar a uma só voz.
Dlamini Zuma considerou que posições divergentes entre os Estados africanos reduzem a capacidade de negociação do continente nas Nações Unidas e noutras instituições internacionais. Em contrapartida, afirmou, uma posição comum permitiria reforçar a influência africana nas decisões globais.
“Devemos unir-nos”, foi a principal mensagem que a antiga responsável da União Africana deixou aos participantes, recordando o pensamento de Kwame Nkrumah, primeiro Presidente do Gana, sobre a importância da unidade continental para a libertação e a afirmação de África.
Dlamini Zuma destacou ainda o peso demográfico do continente, a juventude da sua população e a dimensão colectiva da sua economia como factores que podem reforçar a influência africana no cenário internacional, desde que sejam acompanhados por estratégias comuns.
A antiga presidente da Comissão da União Africana criticou igualmente a dependência da ajuda externa e defendeu que os países africanos devem apostar mais na mobilização dos seus próprios recursos para financiar o desenvolvimento.
Na sua intervenção, chamou a atenção para o modelo de exploração e exportação de matérias-primas, que, segundo afirmou, contribui para que outros países beneficiem de recursos extraídos em África, enquanto as populações locais continuam a enfrentar pobreza e desemprego.
“Temos de acabar com esta ideia de levar os nossos recursos directamente da mina para o porto”, afirmou, defendendo que o continente deve desenvolver a transformação dos minerais e de outros recursos naturais dentro das suas fronteiras.
Para Dlamini Zuma, a exportação de matérias-primas sem processamento local representa também a exportação de empregos, competências e oportunidades económicas. A responsável sustentou que a industrialização africana deve ser acompanhada por investimentos na formação profissional, para que os jovens possam não apenas encontrar emprego, mas também criar empresas, inovar e desenvolver novas soluções.
As intervenções colocaram, assim, três prioridades no centro do debate: uma África politicamente mais unida, com maior capacidade de influenciar as instituições internacionais; uma gestão dos recursos naturais orientada para a criação de valor no continente; e a transformação das recomendações políticas em medidas concretas.
O encontro, organizado pelo Centre on African Philanthropy and Social Investment (CAPSI), em colaboração com os seus parceiros, decorre até 16 de Outubro, em Maputo, sob o tema da reforma do multilateralismo, da soberania sobre os recursos e dos mecanismos de financiamento do futuro das sociedades africanas. (Moz24h)

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