(A Vénus sem rosto)
No pensamento nasce o movimento:
a Vénus que Botticelli deu ao mar,
erguida na concha, em lento alento,
surge da espuma para me tocar.
Invade o silêncio que em mim invento,
com olhos que não sei imaginar.
Desenha-se no vento — quase ausente —
como se o tempo a viesse recriar.
Entre St. Pauli e a Filarmonia,
caminho à beira do Elba, a pensar;
respiro o sal, o vento, a maresia,
escuto as gaivotas no ondular.
Um Fischbrötchen — gesto de harmonia —,
simples presença — breve saborear.
O céu aberto, a luz em melodia,
e Hamburgo a ensinar-me a ficar.
Sem rosto, sem memória, ela ascende,
entregue ao sol, como quem regressa;
cabelos de ouro que o ar desprende,
rituais breves de fumo e pressa.
Tento alcançar-lhe o olhar — mas só vem
música antiga que me atravessa.
Ninfas do sonho tocam também
La Stravaganza, em vibração suspensa:
primeiro harpas, depois violinos —
um eco que o silêncio vem guardar.
Ela não fala: ensina os caminhos
do indizível que não sei nomear.
No rosto ausente, um segredo imenso,
mistério intacto no não-olhar.
Pergunto ao tempo, ao amor suspenso,
se ainda recorda quem foi, quem há.
Sorri na brisa — indecifrável —,
sombra de voz que não chegou.
A luz dissolve-a, impalpável,
em nuvens onde se deitou.
E volta-se, deusa renascida,
com o olhar de Ticiano — distante —:
Vénus de Urbino, adormecida,
num céu sereno, quase vibrante.
Despede-se, lenta, sem ruído,
como quem nunca quis ficar.
E eu, em verso leve e contido,
devolvo-a ao mar.
*Ismael Miquidade in, “Poetografia”

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