Por: Quinton Nicuete
Enquanto Moçambique celebra 50 anos de independência com desfiles, discursos e uma logística avaliada em mais de 33 milhões de meticais, milhões de cidadãos seguem à margem, sem pão, sem esperança e com a panela vazia.
O evento central no Estádio da Machava contou com a presença de chefes de estados, diplomatas, líderes políticos, forças armadas, estudantes, artistas e a população. A “Chama da Unidade”, símbolo da coesão nacional, percorreu o país em caravana cerimonial. Mas nos bairros de Maputo, nas vilas do interior e nos acampamentos de deslocados, o contraste é gritante.
“A bandeira pode estar levantada, mas a panela está vazia há dias”, desabafa Júlia M., vendedeira informal do mercado de Alto-Gingone em Cabo Delgado.
Funcionários públicos foram transportados em massa para os eventos, enquanto professores de zonas remotas continuam à espera de salários. Agricultores enfrentam seca e abandono. Deslocados da violência seguem invisíveis à sombra das fanfarras.
Relatórios internacionais apontam que mais de 2,6 milhões de moçambicanos enfrentam insegurança alimentar aguda. A soberania política não se traduziu em soberania alimentar.
“Estamos a viver a independência política, mas falta a independência da miséria”, resume um jovem residente em Pemba.
As cerimónias consumiram milhões, o suficiente para equipar escolas sem carteiras, abastecer centros de saúde e apoiar comunidades deslocadas.
No final, a “Chama da Unidade” iluminou avenidas e palcos. Mas em muitas casas, a fogueira continua apagada. E a fome grita mais alto do que qualquer discurso oficial.
