Sociedade

IMPACTO DAS MANIFESTAÇÕES PÓS-ELEITORAIS NA ECONOMIA E NO DISCURSO POLÍTICO DA FRELIMO

Por Jerry Maquenzi

 

 

Moçambique entrou num ciclo de tensão política e social após as eleições de 9 de Outubro de 2024. As manifestações pós-eleitorais, convocadas por Venâncio Mondlane, não foram um episódio isolado nem um “momento de desordem” sem consequência. Foram um fenómeno de grande escala, com efeitos económicos visíveis, impactos sociais acumulados e um resultado político que continua a produzir ondas: a mudança do tom e da linguagem da Frelimo, sobretudo quando se fala de questões sociais, custo de vida, juventude e relação entre Estado e cidadão.

O debate público tende a reduzir este período a duas explicações simples e incompletas. A primeira diz que se tratou apenas de vandalismo e sabotagem. A segunda diz que foi apenas uma expressão legítima de indignação popular. A realidade é mais complexa. Houve contestação, houve repressão, houve destruição, houve medo, houve mortes, houve bloqueios e houve paralisação económica. O que interessa analisar, um ano depois, é como esse choque produziu dois resultados simultâneos:

  1. a economia sofreu um impacto directo e indirecto, com perdas quantificáveis;
  2. o discurso da Frelimo tornou-se mais cauteloso e mais performativo, tentando projectar proximidade, eficiência e humanismo institucional.

Este artigo defende que a Frelimo não mudou o discurso por ter “aprendido” ou por ter passado por uma conversão moral. Mudou porque foi obrigada a mudar. E foi obrigada porque Venâncio Mondlane demonstrou capacidade de convocação e mobilização, alterando a relação de forças entre Estado, partido e sociedade.

  1. A Economia Como Campo de Batalha

As manifestações pós-eleitorais afectaram a economia não apenas por criarem instabilidade, mas por interromperem o funcionamento básico do país: circulação de pessoas, transporte de mercadorias, funcionamento de mercados, abertura de lojas, prestação de serviços e arrecadação fiscal.

O Centro de Integridade Pública (CIP), num texto dedicado ao impacto económico, estima que o custo de 10 dias de manifestações pode atingir cerca de 24,5 mil milhões de meticais, equivalentes a 2% do PIB de 2024, usando dados públicos e sectoriais para projectar perdas com base no peso dos sectores na economia (Mate, 2024).

O mesmo texto refere estimativas da CTA, indicando que apenas três dias de paralisações (21, 24 e 25 de Outubro) resultaram num prejuízo aproximado de 46,9 milhões de dólares para o sector empresarial (Mate, 2024).

Mesmo admitindo que diferentes instituições usem metodologias distintas e produzam números diferentes, o ponto central mantém-se: a economia foi atingida de forma relevante, e isso significa que a crise não ficou confinada ao debate político. Entrou no bolso, na mesa e na sobrevivência diária.

O Observatório do Meio Rural (OMR) reforça essa leitura ao descrever as manifestações como um fenómeno com perdas humanas e destruição de infraestruturas públicas e privadas, com impactos sobre actividade económica e ambiente social (Aiuba, 2025).

Além disso, o OMR aponta para efeitos sobre inflação alimentar e contracção do PIB, destacando que o período pós-eleitoral coincidiu com deterioração do desempenho económico.

Quando o país chega a esse ponto, a política deixa de ser apenas disputa entre partidos e passa a ser disputa sobre o funcionamento do quotidiano. E, nesse contexto, o Estado é forçado a reagir, porque a instabilidade prolongada corrói receitas, destrói emprego e ameaça o próprio controlo político.

  1. O Discurso Oficial: Criminalização das Manifestações e Tentativa de Reconstrução da Legitimidade

A “Informação Anual do Chefe do Estado à Assembleia da República sobre a Situação Geral da Nação”, apresentada em 18 Dezembro de 2025, é um documento útil para perceber como o Estado procura enquadrar o período pós-eleitoral e as manifestações (Presidência da República, 2025).

O documento reconhece um contexto económico tenso e menciona que, no quarto trimestre de 2024, período imediatamente após o processo eleitoral, o PIB registou uma contracção severa (cerca de -4,87%).

Também descreve as manifestações como “violentas, ilegais e criminosas” e lista números de destruição: estabelecimentos comerciais destruídos, edifícios públicos destruídos e infraestruturas críticas vandalizadas, associando o fenómeno à perda de empregos e redução da capacidade de arrecadação do Estado.

Essa é a narrativa central: o Estado tenta transformar um fenómeno político num fenómeno de criminalidade. E ao fazer isso, procura justificar duas coisas: repressão e centralização da resposta.

Mas o documento revela mais do que essa criminalização. Ele mostra que o Estado passou a insistir, de forma quase obsessiva, em palavras como:

  • “aproximação entre o Estado e os cidadãos”
  • “diálogo”
  • “prestação de contas”
  • “governação acessível”
  • “Estado que fala e explica”

O informe afirma que a comunicação sistemática do Governo “aproxima o Estado dos cidadãos” e que o Estado tem mantido o povo informado por redes sociais, rádio e televisão, descrevendo isso como uma escolha deliberada para criar um Estado que informa “sem intermediários”.

Este detalhe é essencial: o Estado não está apenas a defender-se. Está a reposicionar-se.

E reposiciona-se porque percebeu que, depois das manifestações, não basta mandar. É preciso justificar. Não basta impor. É preciso explicar. Não basta acusar. É preciso convencer.

  1. A Victória Política de Venâncio Mondlane: A Rua como Lugar de Poder

A convocação das manifestações por Venâncio Mondlane alterou o ambiente político por um motivo simples: mostrou que existe capacidade de mobilização fora do circuito tradicional do Estado e do partido dominante.

Mesmo quando o Estado insiste em chamar “ilegais” às manifestações, a escala e a persistência do fenómeno produziram um efeito de legitimidade social: o protesto tornou-se linguagem política, e a rua tornou-se espaço de disputa pelo poder simbólico.

A victória política de Venâncio Mondlane, neste contexto, não deve ser lida apenas como “victória eleitoral” no sentido formal. Deve ser lida como victória em três dimensões:

  1. victória de agenda: colocou a contestação no centro do país;
  2. victória de mobilização: mostrou capacidade de convocar e sustentar pressão;
  • victória simbólica: obrigou o Estado a sair do conforto e a reagir.

É a partir daqui que se compreende a mudança do discurso da Frelimo: não é uma mudança espontânea. É uma mudança de necessidade.

  1. A Frelimo em Duas Velocidades: Discurso Duro no Topo e “Humanismo” na Base

Um ano depois das manifestações, existe uma diferença visível entre o discurso do topo do Estado e a prática comunicacional dos níveis inferiores, especialmente autarquias e governos locais.

No topo, permanece a narrativa de que:

  • a estabilidade é prioridade absoluta;
  • a ordem pública é inegociável;
  • o Estado não pode ceder à “desordem”;
  • as manifestações foram actos de sabotagem.

A mesma “Informação Anual” usa linguagem forte para enquadrar a instabilidade como “sabotagem” e associa as manifestações a danos avaliados em biliões de meticais, insistindo no peso económico e social da destruição (Presidência da República, 2025).

Mas, na base, a comunicação tem outro tom. Nos municípios governados pela Frelimo, observa-se uma tendência de edis e dirigentes locais publicitarem intensamente as suas realizações, sobretudo por via de vídeos e publicações nas redes sociais, insistindo em:

  • “estamos no terreno”
  • “estamos a trabalhar”
  • “estamos a resolver”
  • “estamos próximos do cidadão”

Esta mudança não acontece por acaso. Ela funciona como uma tentativa de reconquistar a confiança e, ao mesmo tempo, reduzir o potencial de novas explosões sociais.

A Frelimo passou a compreender que o maior risco político já não é apenas a oposição institucional. O maior risco político é a ruptura social, a indignação acumulada e a mobilização popular que se organiza rapidamente.

Por isso, a base tenta actuar como amortecedor: um Estado com rosto humano, um dirigente com discurso calmo, um edil que “mostra obra”, um governador que se apresenta como “próximo”.

  1. O Caso dos Municípios: Maputo, Matola, Pemba e o Marketing do “Trabalho Visível”

A governação municipal tem uma característica: é o nível mais próximo do cidadão e onde as pessoas avaliam o Estado com base no que vêem, e não no que ouvem em discursos nacionais.

Depois das manifestações, tornou-se mais frequente observar:

  • campanhas de limpeza e reabilitação com grande exposição mediática;
  • visitas a mercados, bairros e obras com registo em vídeo;
  • inaugurações com narrativa de “progresso”;
  • insistência na ideia de que o município está activo e presente.

Este padrão tem uma lógica política: se a crise pós-eleitoral gerou desconfiança, a resposta não pode ser apenas institucional. Precisa ser visual, emocional e repetida.

A imagem substitui a transformação estrutural. O risco desta estratégia é evidente: quando o cidadão sente que a propaganda é maior do que a entrega real, o efeito pode ser inverso, reforça a percepção de manipulação e cinismo.

Mas, ainda assim, a máquina insiste porque precisa de controlar a narrativa.

  1. “Tio Salim” e o Novo Estilo

A figura do governador de Nampula conhecido como “Tio Salim” encaixa perfeitamente na lógica do novo discurso: uma tentativa de produzir proximidade e familiaridade, como se o Estado deixasse de ser distante e passasse a ser “parente”.

O uso de uma linguagem afectiva e informal por parte do poder não é apenas estilo. É instrumento político. Serve para desarmar o conflito e reduzir o sentimento de antagonismo entre Estado e sociedade.

Depois das manifestações, a Frelimo percebeu que o problema já não é apenas “governar”. O problema é governar sem ser odiada, sem ser vista como inimiga, sem ser vista como máquina arrogante.

A tentativa de humanização é, nesse sentido, uma tentativa de sobrevivência.

  1. A Contradição que Define o Momento: Arrogância Institucional e Gestão de Imagem

O país vive uma contradição que se tornou difícil esconder. Por um lado, o topo do Estado insiste numa narrativa de legitimidade fechada, como se a crise fosse apenas um problema de “ordem pública”. Por outro lado, a máquina operacional, sobretudo em municípios e níveis locais, age como quem sabe que há um problema real de confiança e de relação com o cidadão.

Esta contradição mostra a centralidade e a arrogância do sistema político: recusa-se a reconhecer o conflito como político e social, mas tenta neutralizá-lo através de aproximação simbólica.

O resultado é um Estado que, ao mesmo tempo:

  • acusa e pede confiança;
  • impõe e sorri;
  • reprime e grava vídeos de “trabalho”;
  • chama o protesto de crime e diz que governa com “diálogo”.

É esta duplicidade que caracteriza o pós-protesto.

  1. A Economia e o Discurso Social: Por que a Frelimo Ficou Mais Cautelosa

A mudança discursiva da Frelimo é particularmente visível quando o tema é social: custo de vida, juventude, desemprego, serviços públicos e desigualdade.

A razão é simples: as manifestações mostraram que o país tem um limite. E quando esse limite é ultrapassado, a rua responde.

O discurso oficial no documento do “Estado da Nação” tenta projectar uma governação orientada para “juventude”, “emprego”, “saúde”, “educação”, “aproximação” e “humanização” (Presidência da República, 2025).

Mas o facto de essas palavras aparecerem com tanta insistência não significa que o Estado se tenha tornado socialmente sensível. Significa que o Estado percebeu que a sensibilidade social virou condição de estabilidade política.

A cautela é uma forma de prevenção. A Frelimo sabe que, depois de Venâncio Mondlane ter demonstrado capacidade de mobilização, qualquer erro discursivo pode transformar-se em combustível para novas ondas de protesto.

Por isso, o discurso tenta evitar confrontos directos com as dores sociais e tenta enquadrar-se como “solução” e não como “causa”.

Conclusão

As manifestações pós-eleitorais convocadas por Venâncio Mondlane produziram um impacto económico real e um impacto político profundo. O país sofreu perdas, houve paralisação, destruição, medo e instabilidade. E, ao mesmo tempo, o poder foi obrigado a reajustar-se.

A mudança de discurso da Frelimo não é sinal de reconciliação automática com a sociedade. É sinal de cálculo.

O partido e o Estado perceberam que:

  • a sociedade está mais disposta a confrontar;
  • a juventude está mais impaciente;
  • o custo de vida é explosivo;
  • a legitimidade já não é apenas formal;
  • e a imagem pública tornou-se parte da batalha política.

O topo continua a falar como se tudo estivesse resolvido. A base tenta agir como se nada estivesse perdido. Mas a tensão permanece: o país não voltou ao “normal”, apenas entrou num novo normal.

E esse novo normal tem uma característica: o poder já não consegue ser arrogante sem pagar preço. O futuro político de Moçambique dependerá de uma escolha que ainda não foi feita de forma clara: ou o Estado transforma de facto a governação, enfrentando desigualdades e respondendo às exigências sociais, ou continuará a administrar a crise através de propaganda, cautela discursiva e gestão de imagem.

Mas uma coisa ficou demonstrada no pós-eleições: a rua passou a ser actor político. E depois disso, nenhum partido governa como antes.

 

Referências

Aiuba, R. (2025). Não há milagres económicos: Impacto das manifestações pós-eleitorais na economia moçambicana e a reposta do Governo. Destaque Rural nº 339. Maputo. Observatório do Meio Rural.

Mate, R. (2024). Impacto económico da fraude eleitoral em Moçambique. Finanças Públicas Edição nº 6. Maputo. Centro de Integridade Pública.

Presidência da República. (2025). Informação Anual do Chefe do Estado à Assembleia da República Sobre a Situação Geral da Nação. Maputo. Presidência da República.

Perfis do Facebook

Satar Abdulgani. Edil de Pemba: https://www.facebook.com/satar.abdulgani.5.

Rasaque Manhique. Edil de Maputo. https://www.facebook.com/p/Rasaque-Manhique-61550574983594/.

Eduardo Abdula (Tio Salim). Governador da Província de Maputo. https://www.facebook.com/profile.php?id=61565172509023.

Leave feedback about this

  • Quality
  • Price
  • Service

PROS

+
Add Field

CONS

+
Add Field
Choose Image
Choose Video