Sociedade

“Fui envenenada na minha última viagem a Moçambique”, revela Jornalista Selma Inocência

“Fui envenenada. Não há uma maneira fácil ou elegante de dizer isto. É uma verdade pesada e muito vergonhosa. Fui deliberadamente exposta a uma combinação perigosa de metais pesados. Quase perdi a vida. Hoje, vivo com dores e limitações físicas. Jornalismo não é crime, é meu dever, e continuarei a honrá-lo”, escreveu Selma Inocência.

“Olá a todos, este não é um vídeo fácil de gravar, mas é necessário e devo isto a mim mesma, e aqueles que acreditam, na verdade, na justiça e no poder do jornalismo. Em Março de 2025, a minha vida mudou para sempre, depois de regressar a Maputo, onde fui dar uma formação, comecei a sentir-me extremamente mal. No início era cansaço, dores fortes de cabeça, tonturas, dores nas costas, queda de cabelo. Depois caminhar começou a ficar cada vez mais difícil, as minhas forças começaram a desaparecer, sabia que algo estava profundamente errado, procurei ajuda médica aqui na Alemanha, onde moro, estudo e trabalho, como vocês sabem e fui internada no hospital e passei por muitos exames médicos e os resultados finalmente chegaram e foram chocantes para mim, para a família e amigos”, explicou Selma Inocência.

 

De acordo com Selma Inocência, “o meu corpo carregava níveis altos de metais pesados, tóxicos, incluindo mercúrio, estanho, cádmio, urânio e tálio. Estas não são substâncias que se encontram por acaso, são venenos industriais e muitos deles são usados em indústrias químicas, mas também, infelizmente, são usados em operações silenciosas para eliminar pessoas.”

“Vocês não têm ideia do que estou falando, reparem nisso, eu fui exposta a uma combinação de substâncias extremamente tóxicas e estou falando, por exemplo, do mercúrio, que causa neuroticidade, danos renais, tremores, declínio cognitivo. O tálio, por exemplo, é conhecido por causar queda de cabelo, falência dos órgãos e danos nervosos graves. O urânio, que provoca falência renal, risco de câncer. O estanho ou zinco é associado a danos nervosos, desconforto gástrico-intestinal, fadiga crônica. Cádmio que provoca danos nos rins, ossos e causa anemia crônica. Antimónio que desencadeia danos no fígado e provoca ataques cardíacos e vómitos. O alumínio que provoca sintomas semelhantes ao Alzheimer e altamente cancerígenos e problemas tóxicos nos pulmões, estou aqui a falar mais de 20 substâncias, pelo amor de Deus que humano consegue fazer isto para outro ser-humano, eu estou viva por um milagre”, revelou Selma Inocência.

 

De acordo com a jornalista, “é um grande milagre, diga-se e, sem dúvidas! Mas, eu não posso ficar em silêncio, porque o silêncio protege aqueles que usam o medo e métodos cruéis para intimidar as outras pessoas.”

“Muitos anos, dediquei a minha vida, minha voz, meu trabalho para falar sobre injustiças, corrupção, abusos de direitos humanos e este é meu trabalho como jornalista. É crime? E, porque sendo crime, eu tenho que ser eliminada e não julgada, se de facto é crime? Mas o que aconteceu comigo deve servir como alerta para toda gente. Substâncias tóxicas estão sendo usadas como ferramentas para silenciar vozes. A banalização da vida humana precisa acabar. Tenho sempre falado sobre isto, não podemos permitir que isto aconteça na nossa sociedade, não hoje!”, defendeu Inocência.

A jornalista disse que está partilhando a situação não para ser sentida pena, mas para consciencializar e dizer que isto aconteceu e que tomou nota de toda a operação e das pessoas que estiveram directa ou indirectamente envolvidas nisso, mas que não era o momento de falar sobre estes aspectos no vídeo publicado.

Segundo Selma Inocência, “mas o importante é preciso alertar que estas substâncias, estes metais pesados não são encontrados em exames normais, não se encontram em exames clínicos normais e no meu caso foi preciso um teste toxicológico especializado e se não tivesse tido a chance de fazer este teste, eu teria supostamente morrido de doença prolongada ou ‘morte natural’ e neste momento estou internada e em tratamento intensivo é por isso tenho muitas limitações físicas por agora, dores intensas diariamente. Tenho agora que enfrentar uma dura realidade, passo o dia deitada, o caminho para a recuperação é longo e incerto, e muito doloroso.”

“Mas não, eu não tenho medo do futuro, continuo a acreditar na justiça, não apenas na justiça divina, mas na justiça traz responsabilização. E se eu tivesse um desejo, eu diria que desejaria que os autores morais de tais actos enfrentassem a justiça, exactamente, eu disse autores morais e mesmo que a justiça moral falhe e me seja negada, a verdade sempre prevalece e digo mais, jornalismo não é crime. Eu não vou parar de falar”, rematou Selma Inocência.

Reprodutor de video

https://www.facebook.com/Prof.adrianonuvunga/videos/1038748454711257

Selma Inocência é uma premiada jornalista moçambicana, tendo já trabalhado na SOICO, o maior grupo de mídia de Moçambique e Miramar. Actuou como Especialista em Mídia no “Programa de Fortalecimento da Mídia em Moçambique”, um projecto financiado pela extinta USAID.

Realizou produção documental, jornalismo investigativo e reportagens com foco em género, tendo o seu trabalho frequentemente destacado questões sociais como a seca e a fome no Sul de Moçambique.(integritymagazine)

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