Eu, Estacio Valoi, hoje confesso-me ao Presidente da República Exmo. Senhor Presidente da República, Daniel Francisco Chapo,
Venho por este meio pedir licença para me confessar. Não porque tenha cometido um crime, mas porque, nos últimos dias, senti que o meu trabalho passou a ser tratado como se fosse um. Tenho ouvido Vossa Excelência afirmar, em diferentes ocasiões, que os moçambicanos devem trabalhar, produzir e contribuir para o desenvolvimento do país. Concordo em absoluto consigo. É precisamente isso que tenho feito. Sou jornalista.[
O meu trabalho não é construir estradas, cultivar a terra ou dirigir uma empresa. O meu trabalho é investigar, fazer perguntas, confirmar factos e publicar informações de interesse público. É assim que sirvo Moçambique.
Sei que nem sempre as minhas reportagens agradam. Quem investiga interesses instalados dificilmente coleciona aplausos. Mas nunca confundi jornalismo com perseguição, nem investigação com militância. O meu compromisso sempre foi, e continuará a ser, com os factos.
Hoje encontro-me numa situação que nunca imaginei viver. Os meus equipamentos de trabalho foram apreendidos e fui notificado para os desbloquear. Para muitos, trata-se apenas de um computador e de um telemóvel. Para mim, representam anos de trabalho, investigações, contactos, documentos e, sobretudo, a confiança das fontes que acreditaram que eu saberia protegê-las.
É por isso que lhe escrevo. Não para pedir privilégios. Não para reclamar de imunidade. Mas para recordar que um jornalista que investiga não está a cometer um crime. Está a trabalhar. Se trabalhar é o caminho que Vossa Excelência propõe aos moçambicanos, permita-me dizer-lhe, com toda a serenidade: estou a trabalhar.
Esta é a minha confissão. Confesso que continuo a acreditar que a verdade merece ser procurada. Confesso que continuarei a fazer perguntas. Confesso que não deixarei de investigar apenas porque investigar incomoda. E confesso, Senhor Presidente, que continuo a acreditar que um país mais transparente é um país mais forte.
Mas permito-me fazer-lhe uma última confissão.
Talvez o meu maior “crime” tenha sido informar os moçambicanos de que o próprio Estado apreendeu 111 contentores de madeira na província de Sofala, travando uma alegada rede de contrabando. Não inventei os factos. Não difamei ninguém. Não procurei atingir pessoas ou instituições. Limitei-me a fazer aquilo que a profissão me exige e que a sociedade espera de um jornalista: investigar, confirmar e publicar informação de interesse público.
Se reportar uma ação do próprio Estado basta para transformar um jornalista em suspeito, então talvez seja tempo de perguntarmos onde termina o combate ao crime e onde começa a criminalização do jornalismo.
Senhor Presidente,
Continuo disponível para trabalhar. É isso que tenho feito durante toda a minha vida. Trabalhar, para mim, é investigar. É ouvir. É confirmar. É publicar.\ É servir o interesse público. Se esta é a minha culpa, assumo-a sem hesitação. Porque ser jornalista não é crime. É o meu trabalho.
E permita-me acrescentar, Senhor Presidente, que não fui eu quem revogou licenças. Não fui eu quem impediu a exportação da madeira. Não fui eu quem apreendeu os 111 contentores. Não fui eu quem os mantém sob custódia do Estado. Todas essas decisões foram tomadas pelas autoridades competentes. Eu fiz apenas aquilo que a minha profissão me impõe: relatei aos moçambicanos um facto de interesse público. Se hoje sou chamado a responder por ter noticiado uma ação do próprio Estado, então a questão que se coloca não é sobre o meu trabalho, mas sobre o espaço que resta ao jornalismo para informar a sociedade. Estácio Valoi não praticou os atos administrativos ou policiais; limitou-se a reportá-los. #Vamos trabalhar
Pema 29 de Junho de 2026

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