Segundo a Integrity, o terrorismo e o ciclone Chido deixaram marcas profundas na infância no Norte de Moçambique. Quando o ciclone varreu Cabo Delgado, em Dezembro de 2024, milhares de crianças já carregavam as cicatrizes de anos de violência armada. Em comunidades como a aldeia de Macaia, no distrito de Ancuabe, a tempestade não foi apenas um desastre natural: agravou uma infância já interrompida pela guerra, expondo crianças a uma dupla vulnerabilidade marcada pelo medo, deslocamentos forçados e pela perda do direito à educação.
Desde 2022, ano das primeiras incursões armadas em Ancuabe, o conflito obrigou famílias a abandonar as suas casas, interrompendo o percurso escolar e fragmentando laços familiares. Quando algumas crianças começavam a tentar retomar a rotina, o ciclone destruiu escolas, residências e meios de subsistência, aprofundando uma instabilidade já crónica.
Amisse Joaquim, pai de quatro filhos, recorda o terror vivido na noite de 15 de Dezembro de 2024:
“Ficámos com muito medo. Muitas casas e a escola dos meus filhos perderam completamente o tecto.”
Educação em risco duplo
Um ano depois, os efeitos combinados da tempestade e da insegurança continuam a bloquear o acesso à educação. Sem salas de aula seguras, muitas crianças estudam em condições improvisadas ou são dispensadas sempre que o tempo muda ou quando há receio de novos ataques.
“Quando chove ou venta muito, os professores mandam as crianças para casa. Isso prejudica o aprendizado delas”, conta Amisse.
Alertas humanitários confirmam a gravidade da situação. Segundo a UNICEF, mais de 90 mil crianças foram directamente afectadas pelo ciclone em Cabo Delgado, com centenas de salas de aula e unidades de saúde danificadas, sobretudo em distritos já marcados pelo conflito armado.
Uma infância deslocada duas vezes
Para muitas crianças, o ciclone não foi o primeiro motivo de interrupção escolar. Antes dele, ataques armados já tinham forçado famílias a fugir em busca de segurança.
“Quando os terroristas passaram aqui pela primeira vez, quase todos fugiram. Algumas crianças conseguiram continuar a estudar nos centros de reassentamento, mas foi muito difícil adaptar-se”, lembra Amisse.
Em Outubro de 2025, o ACNUR reportou quase 22 mil pessoas deslocadas em apenas uma semana devido à violência. Já o UNICEF Mozambique Humanitarian Situation Report n.º 10, divulgado em Dezembro de 2025, indica que cerca de 74 mil pessoas foram deslocadas apenas em Outubro, das quais 43 mil eram crianças. Muitas enfrentam deslocamentos repetidos, aumentando significativamente o risco de abandono escolar permanente.
Auage Abdala, também residente de Macaia, descreve a realidade diária:
“As casas foram destruídas, as escolas também. Hoje algumas crianças estudam debaixo das árvores. E quando há ataques, temos de fugir de novo.”
Escolas frágeis num território inseguro
O Serviço Distrital de Educação de Ancuabe confirma os impactos do ciclone: 103 salas de aula foram afectadas, das quais 46 ficaram completamente destruídas, prejudicando 9.386 alunos. Com apoio das comunidades e de parceiros, algumas infra-estruturas foram reabilitadas, mas o conflito armado continua a provocar suspensões frequentes das aulas.
“Quando a situação de segurança piora, as aulas param. Quando melhora, retomamos”, admite o director distrital de Educação, Silvestre Maguni.
Trauma invisível e futuro incerto
Para Abudo Gafuro, presidente da Associação Kwendeleya, o cenário em Macaia é um dos mais críticos para o desenvolvimento infantil em Cabo Delgado.
“Estas crianças não enfrentam apenas um choque. Vão acumulando traumas que interrompem a infância e forçam um amadurecimento precoce”, explica.
Gafuro alerta que a perda repetida da casa, da escola e do convívio social afecta profundamente a saúde mental das crianças, mesmo quando aparentam resiliência. Entre os sinais menos visíveis estão a agressividade, o medo constante, a dificuldade de concentração e o abandono escolar.
“Quando uma criança perde tudo várias vezes, perde também a capacidade de confiar, sonhar e projectar o futuro. O trauma não tratado transforma-se em silêncio, desistência ou violência”, sublinha.
Sem acompanhamento psicológico e mecanismos eficazes de reintegração escolar, estas crianças tornam-se mais vulneráveis ao trabalho infantil, à exploração sexual e ao recrutamento por grupos armados.
“Proteger a infância hoje é prevenir a violência de amanhã”, conclui Gafuro.
Macaia reflecte a dupla vulnerabilidade enfrentada por milhares de crianças em Cabo Delgado. A infância decorre entre salas improvisadas, noites de fuga e a incerteza do dia seguinte. Ir à escola tornou-se um acto de resistência, enquanto a promessa de um futuro melhor permanece suspensa entre duas crises. Moz24h

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