Economia

Emprego: Quais as Dificuldades Que as Mulheres Enfrentam no Sector Mineiro?

Texto e fotografia: Nário Sixpene

A inclusão de género na indústria mineira continua a ser uma questão por resolver. Especialistas e empresárias apontam a burocracia, a informalidade e a falta de apoio institucional como principais obstáculos.

Autoridades, especialistas, empresárias e representantes da sociedade civil defendem a necessidade de incluir as mulheres na indústria mineira por razões óbvias que incluem a viabilidade e o crescimento económico do País. A reduzida participação feminina no sector, sobretudo na mineração artesanal, é uma questão social, mas também uma limitação ao aproveitamento pleno do potencial económico nacional. Neste contexto, diversas figuras ouvidas pela E&M defendem o acesso das mulheres ao financiamento, a formação técnica, ao licenciamento e a melhores condições de trabalho, num sector ainda marcado por uma forte informalidade. Alertam igualmente para a burocracia excessiva, para os custos elevados e para práticas irregulares, que continuam a afastar muitas mulheres da actividade mineira formal, perpetuando ciclos de pobreza e exclusão.

As constatações resultam do encontro “A Voz das Mulheres na Indústria Mineira: Perspectivas e Testemunhos”, realizado em Nampula, promovido pelo Projecto +Emprego II. Trata-se de um projecto financiado pela União Europeia (UE) e co-financiado e gerido pelo Camões IP (cooperação portuguesa), em parceria com a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) e a Câmara de Minas de Moçambique (CMM). O encontro juntou diversos actores para debater soluções e reforçar o papel feminino no sector extractivo.

Inclusão feminina como imperativo económico

O presidente do conselho empresarial provincial de Nampula, Sakeel Janmahomed, afirma que o baixo aproveitamento da força produtiva feminina “compromete o desenvolvimento sustentável do País.” O sector mineiro, sobretudo na região Norte, apresenta um elevado potencial de crescimento, mas enfrenta escassez de financiamento, excesso de burocracia no licenciamento e insuficiente capacitação técnica. Perante este cenário, defende uma abordagem coordenada entre o Governo, o sector privado e os parceiros de cooperação, com vista à inclusão feminina.

 “A mulher está na extracção, no processamento, na logística e na comercialização, mas continua a trabalhar em condições precárias e com pouca capacidade de organização”

Por sua vez, o director do gabinete do governador provincial, Calquer Nuno de Albuquerque, salienta que, apesar do papel relevante das mulheres na sociedade, a sua presença na indústria mineira continua marcada por uma “invisibilidade injustificada”.

Dar voz às mulheres no sector “é um acto de reconhecimento e um passo essencial para a construção de soluções mais justas e eficazes.”

Dados revelam desigualdades estruturais

“Não pode haver desenvolvimento inclusivo quando uma parte significativa da população continua sub-representada num sector com potencial económico”, afirma o director nacional adjunto de Geologia e Minas, Wilson Mujovo. Moçambique conta com cerca de 229 mil mineradores artesanais e apenas 12% são mulheres, que auferem rendimentos médios inferiores aos dos homens. Mais de metade dos mineradores trabalha por conta própria, num contexto marcado por baixos níveis de escolaridade e elevada informalidade, factores que dificultam a organização e o acesso a financiamento e mercados formais.

A presidente do pelouro das mulheres na CMM, Sofia Mussa, sublinha que as mulheres estão presentes em toda a cadeia de valor, mas enfrentam condições desiguais.

“A mulher está na extracção, no processamento, na logística e na comercialização, mas continua a trabalhar em condições precárias e com pouca capacidade de organização.” A responsável defende a formalização como um passo essencial: “Formalizar não é apenas cumprir um requisito burocrático; é abrir portas para a inclusão económica e social.”

Empresárias denunciam burocracia e exclusão

“Somos nós que levantamos outras mulheres”, afirma a empresária Julina Harculete, referindo-se a iniciativas como a Expo Mulheres, que promove negócios femininos na província de Nampula. Contudo, denuncia a falta de apoio institucional e financeiro: “Se houvesse uma instituição que assumisse os custos logísticos, todas as mulheres da província estariam presentes.” A interveniente critica ainda os entraves no acesso ao sector mineiro. “Para entrar na mineração é preciso dinheiro para pagar licenças e, muitas vezes, para acelerar processos”, afirma, denunciando práticas de corrupção e burocracia excessiva. Defende, por isso, a criação de um balcão único capaz de responder com maior celeridade.

A empresária Maria do Céu alerta para as condições precárias: “As condições de segurança não existem. Nunca existiram.” Segundo explica, muitas mulheres trabalham em escavações profundas, sem equipamentos adequados, expondo-se a riscos graves. Um retrato bastante frequente em toda a mineração artesanal, que é frequentemente notícia por causa de derrocadas mortais. A responsável denuncia também a ausência de mecanismos formais de comercialização.

A líder da Associação 7 de Abril, Albertina Evaristo Manjolo, considera que “não é fácil legalizar uma associação. Mas quando queremos, conseguimos”, relatando um processo que dura há vários anos. A responsável sublinha que a organização colectiva é essencial para o fortalecimento das mulheres no sector, incentivando a criação de associações e cooperativas.

Sector formal apresenta avanços na inclusão

No sector formal, a vice-directora-geral da Kenmare, Regina Macuácua, destaca o aumento da participação feminina na empresa, que passou de 1% para cerca de 18%. “Não queremos ser apenas estatísticas, queremos participar e influenciar decisões.” Segundo explica, este progresso resulta de políticas concretas, como programas de formação, bolsas de estudo e criação de fóruns internos de mulheres. A responsável sublinha ainda a importância de integrar mulheres nas cadeias de valor, através do apoio a pequenos negócios e fornecedores locais.

 

O activista Yusuf Chale destaca a importância do diálogo entre a sociedade civil, o Estado e o sector privado. A cooperação entre estes actores é fundamental para garantir a defesa dos direitos humanos e promover a inclusão das mulheres na indústria extractiva.

Os participantes convergem na necessidade de reforçar esta articulação, defendendo que soluções sustentáveis exigem acções coordenadas e compromisso institucional. De uma forma geral, o encontro evidencia que a inclusão das mulheres na mineração em Moçambique continua a enfrentar desafios significativos, mas também revela oportunidades concretas de transformação. Os intervenientes defendem que dar voz às mulheres no sector não constitui apenas um acto de reconhecimento, mas um passo decisivo para a construção de um modelo de desenvolvimento mais justo, equilibrado e inclusivo no País.

 

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