Por Quinton Nicuete
Por vezes, penso que somos como sapateiros numa festa de gala. Estamos lá, à porta, esperando ser chamados, mas nunca nos convidam para dançar. Ouvimos a música ao longe a pompa, helecopteres, os flashes, os discursos cuidadosamente preparados e permanecemos à margem, com os pés firmes na lama e a alma calejada pela espera. É assim que nos sentimos, nós, os jornalistas de Cabo Delgado.
Na semana passada, mais uma vez, a história se repetiu. A empresa ENI visitou a sua majestosa plataforma flutuante de gás em Afungi, distrito de Palma. Um feito digno de registo. Vieram jornalistas, claro, de Maputo. Todos. Cada câmara, cada microfone, cada bloco de notas, vindo da capital, com o voo fretado e a chancela do protocolo. Nós, os locais, os que conhecem o cheiro do mato, o calor do medo, a respiração das populações cercadas pelo silêncio, ficámos de fora. Como sempre.
Já não é só uma ausência, é uma rotina. Um hábito. Um ritual de exclusão que fere, mas já nem surpreende. E mesmo assim, dói. Porque somos nós que chegamos primeiro quando o fogo consome aldeias. Somos nós que escutamos as mães em lágrimas, que abraçamos crianças perdidas no deslocamento, que escrevemos em cadernos gastos à sombra de uma mangueira qualquer. Somos nós que vestimos o colete de “Imprensa” sem saber se voltaremos vivos.
Mas quando chega o momento de subir ao palco de mostrar ao mundo que aqui também se faz jornalismo os holofotes viram-se para outros. Para os de sempre. Os mesmos nomes, os mesmos rostos, as mesmas malas prontas para voar. E nós ficamos, mais uma vez, a sapatear na porta da festa, com o press release na mão e o coração aos pedaços.
A dor não está apenas em ser preterido. Está na sensação de invisibilidade. Como se o que fazemos não tivesse valor. Como se o jornalismo só tivesse morada em Maputo e nós fôssemos apenas ajudantes de palco, bons para preencher os vazios do quotidiano, mas descartáveis nos momentos de protagonismo.
Dizem que somos jornalistas. Mas será que alguém acredita nisso? Ah… sapateiros de Cabo Delgado!
Não é só a ENI. O próprio Estado nos ensina que ser da província é ser secundário. Quando o Presidente viaja, leva os jornalistas de Maputo. Em Tete foi assim. Em Nampula também. E em Cabo Delgado, mesmo aqui, o gesto repete-se com a naturalidade de quem serve o café sempre à mesma hora. E nós aprendemos a engolir em seco, a sorrir por cortesia, a continuar a escrever com dignidade, mesmo quando ela nos é negada.
Continuaremos, claro. Não por aplausos. Não por palcos. Mas porque acreditamos na missão. Porque sabemos que há histórias que precisam ser contadas. Mesmo que ninguém nos veja, mesmo que nos tratem como sapateiros à porta da gala.
Mas, quem sabe um dia, o convite chegue. E quando chegar se chegar talvez já estejamos tão acostumados com a poeira que a passadeira vermelha nos pareça um exagero.

Leave feedback about this