Sociedade

O ROUBO DE GRAVATA VISTO POR ÓSCAR MONTEIRO

Diziam que o roubo era de homem encapuçado, de madrugada, a partir a fechadura.
Óscar Monteiro veio nos avisar, o roubo mudou de roupa, agora usa terno, gravata e assina relatório.
O crime que não faz barulho
25 de Junho de 1975 gritamos “Abaixo o colonialismo!”.
2026 sussurramos “Abaixo o quê?” porque o inimigo não grita, ele agenda reunião.
O Banco de Moçambique, o guardião do nosso dinheiro, fechou 2025 com prejuízo de 13,3 mil milhões de meticais. O Estado deve ao banco desde 2005, 121 mil milhões que nunca pagou. Há escola sem carteiras, hospitais sem paracetamol.
Mas os 9 gestores do topo? Receberam 300,9 milhões de meticais.
Faz as contas, 33 milhões por ano, 3 milhões por mês, cada um.
Isso não é salário, é declaração de guerra contra o bom senso.
O novo roubo tem diploma, antigamente roubava-se com pistola, hoje rouba-se com “Nota 30, gastos com Pessoal”.
Antigamente escondia-se dinheiro na mala. Hoje publica-se no relatório e chama-se “benefícios de curto prazo”.
É legal? É.
É moral? Pergunta à criança que estuda no chão frio em Gaza.
Pergunta ao enfermeiro que compra luvas do bolso.
Pergunta ao professor que dá aulas a 80 alunos numa Turma debaixo da árvore.
300 milhões pagos a 9 pessoas davam para 120 salas de aulas novas.
Mas sala de aula não dá dividendo, gravata dá.
O paradoxo do guardião então! O Banco Central é para guardar o valor do metical.
Mas quem guarda o valor do moçambicano?
É cruel, a instituição que decide a taxa de juro quando o povo sofre, é a mesma que aumenta salário próprio quando dá prejuízo. É como bombeiro cobrar mais enquanto a casa arde.
Óscar Monteiro, que ajudou a fazer a independência, olha pra isso e chama pelo nome: “novo roubo ao Estado”.
Não é calúnia. É matemática com vergonha.
Mas calma, competência também custa!
A outra voz diz: “Banco Central precisa de gente de topo, gente de topo custa caro, no mundo todo é assim”.
Pode ser verdade, responsabilidade alta, risco alto.
Só que responsabilidade alta sem sensibilidade social vira arrogância.
Ninguém pede que gestor do BM ganhe salário mínimo.
Pedimos que ele lembre que o metical que ele gere tem suor de camponesa em Nampula, tem sacrifício de taxista em Maputo, tem sonho de miúdo em Cabo Delgado.
Ganhamos independência das armas em 75.
Estamos a lutar pela independência da vergonha em 26.
O maior desafio dos 51 anos não é construir ponte, é construir vergonha.
Vergonha de ganhar 3 milhões por mês enquanto o teu povo pede esmola de dignidade.
Roubo de gravata dói mais, porque vem de quem jurou defender o Estado.
Samora dizia: “O mais importante é resolver os problemas do povo”.
51 anos depois, o problema do povo é que alguns resolveram o problema deles primeiro.
E gravata, meus irmãos, também pode ser capuz.
Pátria não é só bandeira, Pátria é decência. (Moz24h)

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