Economia

População obrigada a reparar estrada em troca de ajuda humanitária alimentar em Quissanga

 

Por Quinton Nicuete

 

 

Pemba, Cabo Delgado – Populares das aldeias de Gipalala, Manikani e Mphunthu, no distrito de Quissanga, denunciam que estão a ser obrigados pelo governo local a limpar mato e tapar buracos na estrada que liga a localidade de 19 de Outubro à sede do posto administrativo de Bilibiza como condição para receber apoio humanitário alimentar. A situação ganhou grande repercussão após a circulação de dois vídeos nas redes sociais, na noite desta terça-feira, gravados em língua Emakhua.

Segundo os relatos, os trabalhos decorrem ao longo de um troço com cerca de 20 quilómetros, numa zona de mata densa, onde os moradores afirmam estar expostos a riscos graves. Um dos populares foi mordido por uma cobra de grande porte, estimada em cerca de cinco metros, tendo sido evacuado de emergência para o centro de saúde de Bilibiza. Apesar do incidente, os restantes moradores dizem que continuam a trabalhar sob risco, com a promessa de receber arroz como forma de “pagamento”.

Num dos vídeos, um popular questiona duramente a situação: “O que estão a nos fazer é mau, é castigar o povo. Mandam-nos limpar e tapar buracos na estrada em troca de apoio humanitário. Estamos a perder tempo de ir trabalhar nas machambas, num mato cheio de cobras, tudo por causa de arroz. Será que este é o desenvolvimento que prometeram na campanha eleitoral?”

O mesmo residente denuncia que o trabalho realizado ao longo de um mês seria suficiente para abrir uma grande área agrícola, lamentando que a população esteja a ser desviada das suas actividades produtivas. “Estamos a perder sangue aqui. Um companheiro já foi mordido por cobra e nós continuamos em risco. Depois disso é que nos dão comida, que nem é do governo, mas de parceiros”, acrescenta.

 

No segundo vídeo, os populares explicam que se trata da principal estrada de acesso à vila sede do posto administrativo de Bilibiza e que a intervenção está a ser feita manualmente, com recurso apenas a instrumentos tradicionais. Segundo eles, as autoridades locais teriam afirmado não dispor de fundos financeiros, restando apenas o apoio alimentar como contrapartida pelo trabalho.

“Disseram-nos que não há dinheiro, só há apoio humanitário. Para receber comida, temos de trabalhar. Estamos preocupados com este governo distrital de Quissanga”, relatam os moradores, sublinhando que a estrada deveria ser reabilitada pelo Estado e não à custa do esforço forçado da população vulnerável.

Residente mordido por cobra durante os trabalhos

Os denunciantes questionam ainda o papel do governo na protecção e apoio às comunidades, considerando inaceitável que famílias empobrecidas, afectadas pela insegurança e dificuldades económicas, sejam obrigadas a realizar trabalhos perigosos em troca de alimentos. “Se o governo existe para ajudar o povo, por que nos faz sofrer assim?”, interrogam.

Até ao fecho desta edição, as autoridades distritais de Quissanga ainda não se haviam pronunciado publicamente sobre as denúncias. O Moz24h continuará a acompanhar o caso. Moz24h

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