Economia Sociedade

Sem combustível em Pemba: consumidores continuam nas filas apesar do anúncio de 3,6 milhões de litros

A crise de gasolina continua a afectar consumidores na cidade de Pemba, apesar do anúncio das autoridades de que um navio com cerca de 3,6 milhões de litros de gasolina chegou ao porto local e iniciou o descarregamento.

Na segunda-feira (28), o director dos Serviços de Infraestruturas de Cabo Delgado, Norte Luane, anunciou que as primeiras gasolineiras começariam a vender o produto a partir desta terça-feira (29), depois da reposição dos stocks.

O responsável reconheceu, contudo, que o carregamento não representa necessariamente o fim da crise, afirmando que não era possível determinar por quanto tempo a quantidade disponível seria suficiente, uma vez que os postos da província tinham chegado a ficar praticamente sem combustível.

Entretanto, relatos de consumidores em Pemba indicam que, pelo menos em alguns postos, a situação continuava sem normalização na quarta-feira (30).

Um consumidor, que afirma estar há vários dias à procura de gasolina, relatou que passou a noite de segunda-feira a tentar abastecer sem sucesso e que, na terça-feira, permaneceu numa fila junto de um posto da Petromoc.Segundo o mesmo relato, alguns veículos terão sido abastecidos antes de o posto encerrar as bombas, deixando os restantes consumidores na fila sem uma explicação clara.

“Estou fora de casa desde segunda-feira. Passei toda a noite a lutar para conseguir abastecer, mas sem sucesso. Ontem, terça-feira, vim fazer fila na Petromoc. Eles abasteceram carros de conhecidos, fecharam as bombas e foram-se embora sem justificação plausível. Até hoje, quarta-feira, estou aqui no meio de muitos outros que continuamos lutando para conseguir um pouco dessa substância inflamável chamada gasolina”, relatou o consumidor.

O testemunho contrasta com a expectativa transmitida pelas autoridades de que a chegada do navio permitiria aliviar rapidamente a escassez na província.

Fiscalização contestada

Durante a conferência de imprensa de segunda-feira, o chefe do Departamento de Inspecção e Fiscalização de Energia Eléctrica e Combustíveis, Bernardino Júnior Bernardo, afirmou que o IGREME está a intensificar a fiscalização contra a venda informal de combustível e outras práticas consideradas irregulares.

Segundo o inspector, equipas de fiscalização percorrem diariamente os postos de abastecimento e já foram apreendidos cerca de 2.200 litros de combustível, correspondentes a 1.800 litros inicialmente apreendidos e outros aproximadamente 400 litros posteriormente recolhidos.

As autoridades afirmaram ainda ter aplicado multas que, no conjunto, rondam os 600 mil meticais.

Mas consumidores questionam a eficácia dessas operações e dizem continuar a observar situações que, na sua interpretação, contradizem o discurso oficial sobre a fiscalização.

Um dos consumidores ouvidos acusa alguns operadores de postos de privilegiarem clientes que chegam com recipientes de maior capacidade, incluindo bidões metálicos, enquanto automobilistas permanecem durante horas nas filas.

A mesma fonte questiona a ausência de intervenção visível das autoridades fiscalizadoras perante essas situações.

As alegações, contudo, não constituem, por si só, prova de que exista um esquema organizado entre funcionários das gasolineiras e revendedores informais.

O próprio inspector do IGREME reconheceu, durante a conferência, que a instituição tinha recebido denúncias sobre possíveis esquemas destinados a favorecer determinados clientes, mas afirmou que, até ao momento, não tinha encontrado provas concretas que confirmassem essas suspeitas.

Bernardo disse que a fiscalização pretende intensificar as operações para verificar as denúncias e identificar eventuais infractores.

12 postos continuam inoperacionais

A fragilidade da rede de abastecimento também contribui para a pressão sobre os postos que permanecem activos.

Segundo os dados apresentados pelo inspector, Cabo Delgado possui 52 postos de abastecimento, dos quais 20 estão localizados em Pemba.

Do total provincial, 12 postos encontram-se inoperacionais, devido a diferentes factores, incluindo problemas relacionados com a insegurança e avarias.

Nos distritos, o problema é ainda mais complexo. O inspector afirmou que cerca de 90% dos postos administrativos não possuem gasolineiras, dificultando o acesso ao combustível por parte das populações que vivem fora dos principais centros urbanos.

Governo pede calma aos mototaxistas

Perante o descontentamento provocado pela escassez, o director Norte Luane apelou aos mototaxistas para que não realizem manifestações relacionadas com a falta de combustível.

O responsável garantiu que o Governo está a trabalhar com os operadores dos postos para assegurar uma distribuição mais equilibrada da gasolina disponível.

Apesar disso, a persistência de relatos de consumidores que continuam sem conseguir abastecer levanta dúvidas sobre a rapidez com que o produto descarregado no porto está a chegar efectivamente aos postos e aos consumidores finais.

A questão central passa agora por saber quando os 3,6 milhões de litros anunciados estarão efectivamente disponíveis nas bombas e se a distribuição conseguirá responder à elevada procura acumulada durante os dias de escassez.

Enquanto isso, consumidores continuam nas filas à procura de gasolina, num cenário que mostra que a chegada do navio, embora represente um reforço importante do abastecimento, ainda não significa necessariamente que a crise tenha chegado ao fim. (Moz24h)

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