Economia

Recusa com cunho político

 

Por Edwin Hounnou

 

 

O Conselho Municipal da Cidade da Beira submeteu ao Ministério das Finanças um pedido de isenção de direitos aduaneiros na importação de tambores de betume, matéria-prima essencial na asfaltagem de estradas, mas o pedido foi, liminarmente, recusado por razões não claras, aliás, por motivos políticos.

Desde 2005, é o Movimento Democrático de Moçambique que vem administrando o Município da Cidade da Beira, por sei, o seu pedido deve ter sido visto na perspectiva de que seja uma mais-valia aos olhos dos munícipes. A boa gestão do município, desde os tempos de Davis Simango continua até aos dias de hoje.

Conferir mais créditos, seria um gesto de inocência que a Frelimo não pretende correr. Se o pedido tivesse sido despachado favoravelmente, poderia se pensar que as coisas estivessem a mudar, que, em Moçambique, ser oposição é algo normal. Como não podia ser diferente do que a gente anda habituada, a resposta foi um não redondo.

A recusa do Ministério das Finanças é um sinal claro de que a intolerância política ainda prevalece com toda a sua força e forma. Não é bom, para o partido governamental, que o outro galo cante mais alto. O conceder a isenção de importação de tambores de betume seria um tiro no próprio pé do partido Frelimo.

A Beira luta contra múltiplos problemas. A erosão costeira é um problema na flor da pele. Até às pessoas perguntam-se cantando, com uma dose de humor, se a “Beira é caminho de ventos?!”. As frequentes chuvas de ciclones que se abatem sobre a Cidade, provocam sérias destruições de infraestruturas como edifícios ruas e inundações, o que requer um esforço adicional para pôr a urbe em estado normal.

Quem vive na Beira apercebe-se da complexidade de como gerir uma urbe daqueles. Albano Carige julgou que as autoridades governamentais pudessem ter a mesma sensibilidade, mas se enganou. O governo tem outras prioridades.

O governo demonstrou não ser um órgão sensível aos problemas da gente da Beira e trata a todos pela mesma bitola, o que, na nossa humilde opinião, está errado. O Conselho Municipal da Cidade da Beira pagou a central de betão, laboratório, camiões e outro equipamento, no valor de 218 milhões de maticais.

Para arrancar com os trabalhos, o Conselho Municipal adquiriu 300 toneladas de asfalto e pensou que o governo lhe poderia conceder facilidades na importação de asfalto, mas bateu numa porta habituada à exclusão em função de ser ou não ser.

A recusa foi a resposta sem rodeios, como quem diz : “aguenta aí, oh rapaz!”. Mas a Beira é dos beirenses, independentemente da ideologia política de cada um dos seus habitantes. Ninguém deve ser punido ou excluído por crer e não crer numa ideologia, pertencer ou não a um grupo político.

Dizia um nosso amigo de outros tempos que : “ Beira é muita Beira”, querendo dizer que a Beira está a pagar pela sua irreverência. Quem conhece m pouco da História da Beira, conta-se que nas farsas eleitoralistas de António Salazar, ditador do regime colonial português, que, de vez em quando, ensaiava, nunca conseguiu passar da Beira nem nunca foi capaz de transpor o Rio Chiveve.

O gesto do Conselho Municipal da Beira foi aplaudida pelos empresários locais. O povo cantou e dançou ao música local. Prometeu dar, sem reservas, para colocar o Município em cima. O governo ficou amuado. Piscou para a esquerda e foi para a direita, como sempre tem feito. Deixou a Beira atravessar sozinho o deserto.

O povo é quem ordena e vai avançar, por caminhos espinhoso. A caminhada é ainda bastante longa e requer amigos de verdade. O amigo de verdade é o povo da Beira que não verga por uma ventania, próprio de gente norte. Gente de fibra habituada a grandes combates em campos sinuosos. Cheio de curvas e contracurvas.

O incessante grito MWATHU MUNO – esta terra é nossa – ouve-se no cantar do povo, nas brincadeiras dos petizes, nas mulheres a pilarem milho, a mapira, a acolherem arroz das machambas e nas brincadeiras dos petizes. Esta recusa tem um político.

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