Por Quinton Nicuete
Pemba, Moçambique – Numa entrevista exclusiva, o padre Eduardo Roca traçou um retrato sombrio da actual situação de insegurança em Cabo Delgado, denunciando o agravamento da vulnerabilidade das comunidades rurais, a insuficiência da resposta governamental e a retração da ajuda humanitária, num momento em que novos ataques insurgentes voltam a espalhar medo pela província.
Risco crescente nas zonas rurais
Segundo o sacerdote, a diferença entre o ambiente nas áreas urbanas e nas zonas rurais é marcada e preocupante.
“Nas zonas rurais vive-se um sentimento de muita vulnerabilidade, porque não se sabe o que vai passar. Ninguém garante que não haverá ataques, que não chegará um grupo armado, que não vão entrar e queimar as casas”, afirmou.
Roca relata que as incursões armadas se intensificaram nos últimos meses, atingindo localidades como Nangade, Palma, Mocímboa, Quissanga, Meluco e, mais recentemente, Chiúre.
A chegada de deslocados destas regiões não tem sido acompanhada por ajuda humanitária adequada, deixando famílias completamente desamparadas.
Resposta fragmentada e sensação de abandono
Embora rejeite a ideia de uma estratégia deliberada de inação, o padre sublinha que a insurgência se desenvolve num território vasto e dinâmico.
“Estamos a falar de extensões enormes e de grupos que funcionam como toperas, hoje estão aqui, amanhã já não se sabe onde estão. Nenhum terrorismo deste tipo se resolve apenas pela via defensiva.”
Na ausência de protecção estatal, algumas comunidades chegam a procurar alianças com insurgentes, que se oferecem como “protetores” perante a insegurança. Este fenómeno, segundo Roca, é particularmente perigoso, pois dá sentido e pertença a jovens sem oportunidades.
Raízes sociais e económicas profundas
Para o sacerdote, a crise não é apenas militar: tem raízes na marginalização histórica, nas desigualdades e no acesso desigual aos recursos naturais.
“Tudo começou com o descobrimento do gás natural, do rubi, do ouro, do grafite… Comunidades que sempre viveram na pobreza viram outros enriquecerem com recursos que estão nas suas terras, enquanto elas continuam ou até pioram a sua condição.”
Apesar da existência de estruturas como a Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), o padre denuncia falhas graves na execução dos programas. “O problema não é falta de ideias, é que os programas não funcionam. Enquanto não houver oportunidades, a insurgência vai aproveitá-las.”
Missões encerradas e impacto na Igreja
A insegurança obrigou ao encerramento de várias missões católicas no norte da província.
“Palma já não tem nada, Quissanga não tem nada, Meluco não tem nada, Nangade já não tem nada. Os missionários refugiaram-se em Pemba e mantêm apenas algumas missões em Montepuez, Namuno, Balama, Chiúre e Ocua. Se a situação continuar, nem essas serão sustentáveis.”
Com a ajuda de emergência quase inexistente, a Igreja tem procurado manter algum apoio, mas enfrenta dificuldades crescentes.
A substituição de ações imediatas por projetos de “segunda fase” deixa desprotegidas as populações recentemente afetadas.
Necessidade urgente de diálogo e vontade política
O padre defende que o diálogo deve integrar a estratégia de resolução do conflito.
“Desde o início houve tentativas de diálogo, mas é difícil, porque nem sabemos bem quem comanda estes grupos. No entanto, é urgente ter vontade política e sinceridade para encarar os problemas.”
Para Eduardo Roca, o caminho defensivo isolado não funciona.
O seu apelo final é direto
“Se queremos resolver o nosso problema, temos de ter vontade para o fazer. Este conflito tem raízes políticas, sociais, económicas e religiosas. Falta vontade para se resolver de forma verdadeira.”
O conflito em Cabo Delgado teve início em outubro de 2017 e já provocou centenas de milhares de mortos e deslocados internos, segundo a ONU. Apesar da presença de forças militares nacionais e internacionais, ataques de grupos armados continuam a ocorrer, com impacto severo nas comunidades locais, no tecido social e na economia da província. Moz24h
