Economia

Tratores, o Futuro do Passado

 

Por: Mui Woothaceria

Não é preciso ter o ouvido apurado para sentir o ranger das engrenagens do tempo girando ao contrário. Em Moçambique, a modernidade anda a diesel, em cima de pneus largos, entre sacos de cimento e enxadas. E não, não estamos a falar de uma zona agrícola. Estamos a falar de transporte público. Estamos a falar de tratores.

Sim, tratores. Aquele veículo que em qualquer lugar do mundo serve para lavrar a terra, aqui virou solução do transporte público.

Solução institucional, diga-se. Apresentada com orgulho, filmada em vídeos cheios de sorrisos e promessas, como se estivéssemos todos a viver num episódio surreal de um documentário sobre a criatividade em tempos de crise.

Mas a criatividade, quando não é acompanhada de bom senso e dignidade, beira o absurdo. Não há como florear: é indigno que, em pleno século XXI, enquanto o mundo discute mobilidade eléctrica, cidades inteligentes e transporte sustentável, nós estejamos a bater palmas à ideia de subir num trator como quem embarca num autocarro.

É verdade, o país enfrenta desafios estruturais, logísticos e orçamentais. Mas não se pode normalizar o improviso como política pública. Não se pode gravar vídeos a vangloriar a precariedade e ainda vir dizer que não foi erro de alocação. Como assim não foi? Alocar milhões em tratores para transportar pessoas, e chamar isso de inovação, é negar a realidade do povo, que merece mais do que ser tratado como carga.

O trator que deveria cultivar alimento, agora cultiva revolta. Cada viagem é uma metáfora dura do quanto ainda estamos distantes de um país que se respeita. Um país que planeia, que pensa nos seus cidadãos com a seriedade que merecem. Um país que não empurra soluções de barro enquanto o povo caminha na lama.

Enquanto outros países constroem trens de alta velocidade, nós aqui fazemos marcha-atrás com orgulho. Não é vergonha andar de trator. Vergonha é chamar isso de solução definitiva e fingir que está tudo bem. Não está.

Por isso, perdoem-nos o cansaço. Estamos a “render”. Mas é cansaço de quem sonha com dignidade, não com improviso institucional. De quem quer ver o país andar para frente, com os pés firmes no presente, e não sobre rodas agrícolas em nome de uma narrativa mal contada.

O povo está a acordar. E como diz um velho provérbio em Emakhuwa:
“Muana oomeno khanhelia nikhoko mmuano.”
Um bebê com dentes, não se mete o dedo na sua boca.

 

 

 

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