Economia

MOÇAMBIQUE: Conservação em Colapso, Justiça em Silêncio — A Tragédia Verde de Inhambane, Marromeu e Mágoe

foto: Estacio Valoi

Por Tiago J.B. Paqueliua

 

A exploração desenfreada de recursos no Parque Nacional de Zinave está a colocar espécies florestais à beira do desaparecimento, denunciaram os gestores das áreas de conservação da província de Inhambane durante um encontro com o Procurador-Geral da República (OPaís, 14/08/2025). A situação, contudo, não é isolada: de Marromeu a Mágoe, os mesmos erros repetem-se, num ciclo que ameaça transformar as áreas de conservação de Moçambique em cenários de devastação irreversível.

Segundo os responsáveis, a morosidade processual continua a ser o maior obstáculo: mesmo após operações de fiscalização e detenções, quase nenhum caso chega a julgamento. “Os processos morrem nas gavetas da justiça”, confidenciou um técnico do Parque Nacional de Zinave.

Zinave: a floresta transformada em serraria ilegal

Localizado no distrito de Mabote, o Parque Nacional de Zinave deveria ser um santuário ecológico. Porém, a extração de madeira decorre de forma descontrolada, atingindo níveis alarmantes. Estima-se que mais de 12 mil metros cúbicos de madeira sejam retirados ilegalmente todos os anos, com perdas avaliadas em cerca de 4 milhões de dólares anuais.
Espécies de elevado valor, como o umbila e o sândalo, são derrubadas sem critério, muitas vezes à vista das autoridades. “É como ver uma hemorragia aberta sem socorro”, lamentou um ambientalista de Inhambane.

Bazaruto: um paraíso insular sem guardiões

No Parque Nacional de Bazaruto, a maior reserva marinha do país, o problema é o controlo inexistente sobre quem entra e sai. Pesca ilegal, recolha de corais e exploração de espécies marinhas ocorrem num cenário de fiscalização quase simbólica.
Segundo dados partilhados por operadores turísticos, até 30% do peixe capturado em zonas proibidas nunca chega a ser contabilizado oficialmente, reduzindo a renda fiscal e ameaçando cadeias alimentares. “É um paraíso, mas sem porteiro”, ironizou um operador turístico local.

Marromeu: quando a vida selvagem colide com a sobrevivência humana

Na Reserva Especial de Marromeu, em Sofala, o conflito homem-fauna agrava-se: cerca de 1.500 hectares de machambas são destruídos anualmente por elefantes, equivalendo a mais de 2.000 toneladas de milho e mandioca perdidas.
Leões atacam gado e, em média, 15 pessoas por ano são vítimas de animais selvagens na região.
Paralelamente, o corte indiscriminado de lenha e a produção de carvão aumentam, com mais de 20 mil sacos de carvão vegetal a saírem ilegalmente todos os meses para os mercados urbanos.

“Os camponeses sentem-se abandonados, porque nem a conservação nem a justiça lhes oferecem respostas”, denuncia o sociólogo ambiental Bento Manjate. “O discurso oficial defende o búfalo, mas esquece o agricultor.”

Mágoe: carvão negro, futuro cinzento — e a polêmica de Júlia Muito

No Parque Nacional de Mágoe, na província de Tete, a situação é semelhante: mais de 60% da lenha e do carvão comercializados localmente têm origem ilegal, alimentando redes de exploração sem retorno para as comunidades.
O mesmo parque onde deveria florescer o turismo de observação de elefantes vê agora manadas inteiras a invadirem aldeias, destruindo culturas e obrigando camponeses a abandonar terras férteis.

Mas o problema não é apenas ecológico: é também de liderança. Júlia Muito, administradora do Parque Nacional de Mágoe, é apontada pelas comunidades como uma gestora que valoriza mais a vida dos animais do que a dos seres humanos. Em várias assembleias locais, Júlia terá aconselhado camponeses a “aceitar que os elefantes devorem as culturas, porque são parte da natureza”.
Uma postura que gerou revolta: “É fácil falar de preservação quando não é o seu milho que desaparece em poucas horas”, comentou indignado um agricultor de Mágoe.

A obsessão de Júlia Muito pelos animais, acusam líderes comunitários, criou um fosso entre a administração do parque e as populações vizinhas. “Ela protege obsessivamente os elefantes, mas ignora as viúvas e as famílias que perdem tudo”, sublinhou um líder local.

Impacto Global das Perdas

Segundo estimativas de organizações ambientais e económicas:

1.⁠ ⁠Madeira extraída ilegalmente (Zinave e Mágoe): mais de 20 mil m³/ano, equivalentes a 8 milhões USD.

2.⁠ ⁠Agricultura perdida por destruição de fauna (Marromeu e Mágoe): cerca de 7 milhões USD/ano.

3.⁠ ⁠Pesca ilegal em Bazaruto: perdas de 2 milhões USD/ano em rendimento fiscal e turístico.

4.⁠ ⁠Carvão ilegal: mais de 240 mil sacos/ano, representando 6 milhões USD no mercado paralelo.

Total das perdas anuais estimadas: 23 milhões USD.

Vozes Internacionais

A preocupação não se limita a Moçambique.

WWF: “A falta de responsabilização judicial está a transformar os parques nacionais em zonas livres para máfias ambientais.”

IUCN: “A sobrevivência de espécies emblemáticas como o elefante africano depende de uma justiça eficaz e de gestores que conciliem a proteção da fauna com os direitos humanos.”

UNEP: “Moçambique corre o risco de perder, em duas décadas, 40% da sua cobertura florestal protegida se não houver reformas estruturais na governação ambiental.”

 

Comentário

O colapso das áreas de conservação não pode ser visto como uma soma de casos isolados. Zinave, Bazaruto, Pomene, Marromeu e Mágoe formam um mosaico ecológico que, interligado, sustenta o equilíbrio climático, a biodiversidade e até a segurança alimentar das comunidades humanas.
Cada árvore abatida em Zinave é menos sombra e menos chuva; cada coral destruído em Bazaruto é menos abrigo para peixes; cada elefante empurrado contra as machambas de Mágoe é menos equilíbrio para a savana.
A ciência, a economia e a ética convergem numa mesma equação: proteger hoje é garantir soberania amanhã.

Epílogo

E aqui entra, em cena majestosa, a Procuradoria-Geral da República. Sempre pronta a redigir relatórios cintilantes, a presidir conferências e a proclamar compromissos ambientais perante câmaras de televisão. Mas quando as comunidades clamam por justiça, porque os elefantes devastaram as suas machambas ou porque os caçadores furtivos saem em liberdade pela porta da frente, a mesma Procuradoria encena o seu melhor papel: o da invisibilidade.

É curioso: a lei é rápida a condenar quem corta uma árvore sem licença, mas é lenta, preguiçosa e quase inexistente quando se trata de julgar máfias de exploração de madeira. É eficaz a proteger a girafa, mas negligente em proteger a criança atacada pelo leão. É firme na defesa do hipopótamo, mas amnésica quando o camponês perde toda a sua colheita.

Se a Procuradoria tivesse o zelo com que um lenhador afia o seu machado, talvez Zinave, Marromeu e Mágoe ainda fossem paraísos intactos. Mas assim, continuam a ser apenas cenários de uma tragédia verde em capítulos sucessivos — até o último baobá tombar.

 

Referências Bibliográficas

1.⁠ ⁠O País. “Parques Nacionais de Moçambique em risco: especialistas alertam sobre destruição de fauna e flora.” 14/08/2025.

2.⁠ ⁠WWF Mozambique. Relatório sobre biodiversidade e exploração ilegal. 2024.

3.⁠ ⁠IUCN (International Union for Conservation of Nature). African Elephant Status Report. 2023.

4.⁠ ⁠UNEP (United Nations Environment Programme). Global Environmental Outlook: Forests and Wildlife. 2022.

5.⁠ ⁠Bento Manjate, Sociólogo Ambiental, Sofala, entrevistas de campo, 2025.

6.⁠ ⁠Isabel Uamusse, Jurista Ambiental, Maputo, comunicação pessoal, 2025.

7.⁠ ⁠Relatórios internos do Parque Nacional de Zinave e Mágoe, Administração Provincial de Inhambane e Tete, 2025.

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