Economia Sociedade

Mineradora GemRock enfrenta protestos após atrasos salariais e paralisações em Cabo Delgado

Por Quinton Nicuete

Trabalhadores da GemRock denunciam salários em atraso há meses, acusações de maus-tratos e descumprimento de compromissos sociais, num contexto em que a empresa teve as operações suspensas após ataques insurgentes na região._

 

Trabalhadores reclamam salários em atraso e maus-tratos

 

Empregados da GemRock, que explora pedras preciosas em Nacoja, posto  administrativo de Meza,  distrito de Ancuabe, Cabo Delgado, denunciam que não recebem ordenados há vários meses. Segundo funcionários ouvidos pelo Moz24h em contacto telefónico, os salários estão atrasados desde Abril, estimando-se cerca de cinco meses sem pagamento. Em alguns relatos o intervalo chega a quatro meses, por exemplo, trabalhadores afirmam ter ficado sem receber de 28 de outubro de 2022 até 1 de março de 2023, embora continuassem trabalhando nesse período. Muitos empregados afirmam que a situação os colocou em sérias dificuldades financeiras, chegando-se a citar casos de trabalhadores jovens com filhos para sustentar que não conseguem comprar alimentos nem remédios devido à falta de salário.

 

Além dos atrasos nos pagamentos, os trabalhadores acusam a empresa de perseguições e maus-tratos. Há denúncias de que funcionários teriam sido ameaçados, agredidos e até despedidos sumariamente quando reivindicavam salários em atraso. Segundo um dos trabalhadores, ao exigir o pagamento devidos, empregados foram expulsos sem aviso prévio do acampamento de mineração, a maioria sem receber quaisquer indemnizações legais. As tentativas de diálogo também teriam sido frustradas: um protesto dos trabalhadores junto às autoridades distritais não obteve resposta positiva.

Relatos indicam que, em maio de 2023, até o proprietário indiano da empresa visitou o local para prometer investimentos (como escola e furos de água), mas nada foi cumprido, e as queixas apresentadas à direção distrital de Ancuabe teriam ficado sem solução.

 

Ataque insurgente e suspensão das operações

 

A situação ganha contornos mais complexos no contexto da insurgência em Cabo Delgado. Em 20 de outubro de 2022, um grupo armado atribuído ao Estado Islâmico atacou a mina da GemRock em Nacoja. O ataque queimou veículos, máquinas e destruiu parte das instalações, levando o governo moçambicano a reforçar a segurança na área. A própria Gemfields (que controla a vizinha Montepuez Ruby Mining) relatou que o ataque ocorreu na mina vizinha da GemRock, a apenas 12 km das suas operações principais. Como consequência, as forças de defesa e segurança moçambicanas foram enviadas para a zona e as operações de mineração foram suspensas – o pessoal foi evacuado e permanecia em alerta até que a situação se estabilizasse.

 

O Estado Islâmico chegou a reivindicar oficialmente o ataque à GemRock, publicando em sua revista que o atentado teria causado “grandes perdas económicas aos proprietários na Índia” e acusando a empresa de “roubar a riqueza dos muçulmanos”. Fotos divulgadas mostram dezenas de camiões e equipamentos destruídos pelo incêndio causado pelo ataque. Esses eventos foram usados pela GemRock para justificar a paralisação das atividades, alegando que as operações só poderiam retomar em segurança com escolta das forças armadas e novos sistemas de vigilância no terreno.

 

Protestos operários e repressão

 

Em reação à falta de salários, os trabalhadores da GemRock tentaram realizar protestos mas sem sucesso ou melhor, foi prontamente reprimidas pelas Forças de Defesa e Segurança. Segundo depoimentos, vários operários foram ameaçados durante a tentativa da manifestação. Embora não existam registos oficiais precisos sobre a actuação das forças de segurança nesse contexto, o clima de tensão foi elevado por denúncias de que as forças locais participaram na dispersão dos protestos. A situação agravou-se com a crescente frustração dos funcionários diante do silêncio tanto da empresa quanto das autoridades.

 

Críticas à responsabilidade social da empresa

 

A população local e lideranças comunitárias também expressam descontentamento com a GemRock. Antes do início efetivo da exploração, a empresa havia prometido investir em infraestruturas sociais (como estradas, escolas e furos de água) na região de Ancuabe. No entanto, segundo residentes, nada disso foi concretizado até hoje. Denúncias apontam que, desde 2017, quando começaram as consultas comunitárias, nenhuma das promessas de melhoria foi cumprida. Regulos (autoridades tradicionais) relatam que as aldeias continuam sem escola, sem posto de saúde e com estradas precárias, apesar de constantes reuniões e cobranças. Também se critica a GemRock por não pagar impostos locais e por empregar funcionários estrangeiros irregulares – segundo autoridades, o próprio administrador da empresa chegou a ser detido brevemente por falta de documentação apropriada. Todas essas queixas circulam sem que, até o momento, haja sanção ou mediação efetiva por parte das entidades governamentais locais, o que alimenta no terreno a insatisfação generalizada.

 

A população e os líderes locais, dizem que, a administração da GemRock alega enfrentar dificuldades financeiras graves, agravadas pela paralisação das operações após o ataque insurgente. O fundador Ian Charles Hannam disse que a empresa ficou quase sete meses parada, com “prejuízos enormes” e sem receita para pagar os cerca de 500 funcionários.

 

Em entrevista passada à Lusa, Hannam destacou a ausência de lucros no período: a empresa teve “grandes perdas” e não dispunha de fundos para honrar folhas salariais. Em carta de resposta a denúncias, a direção da GemRock afirmou que partes das promessas sociais feitas no passado seriam objeto de consulta futura, mas admitiu que os salários em atraso só seriam pagos até 19 de dezembro de 2023. A empresa também afirma ter dispensado alguns empregados seguindo os trâmites legais, justificando que parte do problema adveio da insurgência. Sobre a ausência de lucros, representantes declararam que a GemRock “nunca obteve lucros” e manteve os minérios extraídos estocados nos armazéns, aguardando condições favoráveis para a sua comercialização.

 

Propriedade e ligações industriais

 

A GemRock atua no mesmo corredor rubi onde opera a Montepuez Ruby Mining (MRM). Conforme relatórios do setor, a GemRock tem origem no grupo indiano Diacolor: é subsidiária da Diacolor International DMCC, empresa de joias de luxo fundada na Índia. A mineradora foi cofundada por Rishabh Tongya e por Rajiv Gupta – este último também cofundador da Gemfields, controladora de 75% da Montepuez Ruby Mining. Em 2019 a GemRock adquiriu as licenças de rubi do Regius Group, tornando-se detentora de uma das maiores áreas de exploração rubi no país (estima-se ser a segunda maior em termos de concessões, atrás apenas da Gemfields). Desde então, a empresa vinha explorando rubis (e, em menor escala, grafite) na faixa sul de Cabo Delgado, zona rica em depósitos mas afetada mais tarde pela violência armada. A ligação familiar de Rajiv Gupta a ambas as empresas (Gemfields e GemRock) reforça a intersecção entre as atividades mineradoras na região. Moz24h

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