Oil & Gás

GÁS SEM FUTURO? COMO OS PODEROSOS ABANDONAM CABO DELGADO E DEIXAM UM PAÍS À MERCÊ DA INCERTEZA

 

Por Jerry Maquenzi

 

 

Durante anos fomos alimentados com a ideia de que o gás natural de Cabo Delgado seria o grande salto para o futuro de Moçambique. As elites do poder diziam que a exploração das reservas offshore, entre as maiores da África subsaariana, colocaria o país no mapa energético global, impulsionaria o crescimento económico, criaria emprego e transformaria Pemba numa mini Dubai. A TotalEnergies, líder do megaprojecto Mozambique LNG, tornou-se a bandeira dessa esperança. Bancos e governos estrangeiros, incluindo o Reino Unido, decidiram financiar o sonho. Parecia uma corrida inevitável rumo à prosperidade.

Mas os sonhos, sobretudo quando são construídos sobre areia mutável, têm um prazo curto. Recentemente, o governo britânico anunciou a retirada do seu financiamento público ao projecto (Ambrose, 01.12.2025). Não foi apenas uma decisão financeira, mas um gesto político e moral: “o risco é demasiado alto, a instabilidade é persistente, e o investimento em combustíveis fósseis não combina com os compromissos climáticos”. A declaração soou como uma bofectada à narrativa triunfalista em Maputo: o dinheiro ocidental começou a evaporar-se, deixando Moçambique com uma pergunta incómoda. E agora?

Este artigo não pretende pintar um cenário apocalíptico. Também não pretende vender a falsa ideia de que as reservas de gás deveriam ficar eternamente enterradas. O que se propõe aqui é algo mais simples e urgente: olhar de frente para as implicações do desinvestimento britânico, perceber o que isso significa para a economia moçambicana, para a política, para as comunidades locais, e para o próprio lugar de Moçambique no mundo. É uma chamada de atenção para repensar a forma como o país vive o gás: não como promessa de redenção, mas como um risco real de nova tragédia económica e social.

  1. A Economia Política do Gás em Cabo Delgado

Desde a independência, Moçambique vive de narrativas de “salvadores”. Primeiro, a ajuda externa; depois, a liberalização; anos mais tarde, os recursos naturais (madeira, grafite, carvão mineral e areias pesadas). A descoberta de gás na Bacia do Rovuma foi apresentada como a terceira grande revolução, e talvez a definitiva. O governo, a diplomacia económica e as petrolíferas venderam ao país uma ideia simples: o gás pagará a nossa estrada para o desenvolvimento.

Essa retórica foi persistentemente crescendo até a altura em que Moçambique ainda lambia as feridas do Caso das Dívidas Ocultas. A promessa do gás veio com um alívio psicológico: “sim, cometemos erros, mas o futuro será diferente; não venderemos apenas carvão; seremos potência energética”. O discurso funcionou. O país entrou numa onda de optimismo sem precedentes. Projecções oficiais apontavam para taxas de crescimento de dois dígitos com as exportações de GNL (Standard Bank, 2019). Parlamentares e tecnocratas falavam num “novo ciclo económico”.

Contudo, a economia política real foi bem menos romântica.

Primeiro, o controlo e a captura do projecto ficaram restritos a um círculo fechado de empresas estrangeiras, elites políticas e intermediários locais. Segundo, a maior parte das receitas significativas, quando chegassem, viria apenas após vários anos de operação, e isso na melhor das hipóteses. Terceiro, a infraestrutura estratégica (estradas, portos, bases logísticas, hotéis) beneficiou sobretudo empresas ligadas a elites de Maputo e alguns grupos empresariais provincial.

Enquanto isso, a população local viu pouco além da chegada de militares e de empresas privadas de segurança, a especulação imobiliária e a destruição de actividades piscatórias tradicionais. A promessa feita às comunidades foi simples: “aguentem o sacrifício agora para colher os frutos depois”. Mas esse “depois” foi adiado muitas vezes sem resultado.

Não foi a falta de gás que estragou o projecto. Foi a explosão de violência armada em outubro de 2017, quando insurgentes aproveitaram as tensões locais, o abandono estatal e as promessas vazias para alimentar uma revolta brutal. De repente, toda a infraestrutura económica ficou pendurada num fio: ninguém investe biliões quando homens armados queimam aldeias. A TotalEnergies suspendeu operações em 2021, após o ataque de Palma. Desde então, o projecto vive numa indefinição estratégica: nem avança com vigor, nem se despede oficialmente.

O anúncio britânico, portanto, não é apenas uma decisão financeira, é um veredito: o projecto de gás foi politicamente mal concebido e socialmente explosivo.

  1. Desinvestimento Britânico: Leitura Geopolítica e Climática

O Reino Unido não é um país qualquer. É uma potência com tradição global e reputação de financiador de grandes projectos. A decisão de Londres pesa não apenas pelo dinheiro, mas pelo simbolismo. Quando um actor com esta envergadura abandona o barco, os outros financistas param para pensar.

Há três dimensões neste gesto.

Primeira: a preocupação climática. Os países ricos estão sob pressão interna: activistas, mídia, jovens eleitores exigem coerência entre discurso climático e investimentos. Financiar gás em Moçambique, uma região com insurgência e impactos sociais severos, tornou-se politicamente tóxico. Londres preferiu sacrificar um pedaço de influência externa a ser acusada de hipocrisia ambiental.

Segunda: a reputação em direitos humanos. Relatórios de organizações nacionais e internacionais documentaram casos de abusos graves cometidos por forças estatais e por milícias privadas ligadas à protecção do projecto GNL (Amnesty International, 2021; Rufin, 2023; Justiça Ambiental, 2020). Famílias assassinadas, aldeias incendiadas, detenções arbitrárias. A imagem do “gás do progresso” foi substituída pela imagem de uma guerra suja. Não ajuda o facto de Maputo tratar as denúncias como ataques de inimigos externos. Aos olhos do Ocidente, essa postura fecha portas e aumenta o risco reputacional.

Terceira: política externa baseada em interesses práticos e realistas. Há um movimento silencioso em curso: os países ocidentais estão a reduzir a exposição em projectos fósseis de alto risco político. Ao mesmo tempo, capitais chineses, indianos e árabes entram com apetite. O desinvestimento britânico abre espaço para uma transformação profunda: o centro de gravidade do financiamento de Cabo Delgado pode mudar rapidamente para a Ásia e o Golfo. E com isso, o jogo muda. Novos financiadores não exigem padrões de transparência, não pressionam por direitos humanos, não têm interesse à democratização. O preço da nova aliança pode ser alto: menos escrutínio, mais dependência, mais submissão geopolítica.

  1. Impactos Internos: Legitimidade, Tensões Sociais e o “País Dividido”

O Estado moçambicano sempre se posicionou como árbitro entre investidores e comunidades. Mas no caso de Cabo Delgado, o governo actuou mais como sócio das petrolíferas do que como mediador do interesse nacional. O resultado foi uma percepção de abandono total da população local.

Os jovens de Palma, Nangade, Mocímboa da Praia, Macomia, Quissanga e Muidumbe foram deixados perante um dilema: aceitar empregos precários e inexistentes prometidos pelas empresas, ou agarrar-se à economia informal, madeireiros furtivos, tráfico de rubis, pesca ilegal, contrabando transfronteiriço. A insurgência aproveitou esses ressentimentos. As promessas de Moçambique “potência energética” foram transformadas em propaganda violenta: “Eles ficam com o gás, nós ficamos com os corpos”.

Quando o Reino Unido abandona o projecto, esta ferida reabre. Para as elites da capital, o recuo britânico é inconveniente. Mas para as comunidades locais, é a confirmação de que o “desenvolvimento do gás” era apenas um mito vendido aos estrangeiros. É como ver a construção de uma ponte promissora ser interrompida quando o cimento ainda está húmido: não dá para continuar nem para desfazer; fica tudo parado, gerando frustração e instabilidade.

A insurgência, ainda activa apesar das intervenções ruandesas e de alguns países da SADC, ganha narrativa. Grupos radicais podem apresentar o desinvestimento como “prova” de que os estrangeiros nunca vieram para ajudar Moçambique, mas apenas para saquear recursos. A resposta militar resolve o sintoma, mas não a raiz. Os jovens continuam sem perspectivas. A vida social é suspensa. A dignidade é fragmentada.

Ao mesmo tempo, dá-se um fenómeno perverso: a militarização permanente. Para garantir a segurança do projecto, reforçam-se as bases militares, policiamento e controlo sobre a circulação da população. Quanto mais instabilidade económica, maior o argumento para o uso de força. E quanto mais força, mais ressentimento se acumula. A história africana está cheia de exemplos idênticos: segurança para projectos, insegurança para populações pobres.

  1. Entre a Justiça Climática e o Direito ao Desenvolvimento

O debate sobre o gás de Cabo Delgado alimenta uma grande contradição global. De um lado, jovens activistas do norte global exigem transições rápidas para energias renováveis (Nações Unidas Moçambique, 2025; Climate Action Network International, 2024; C40 Cities, 2021; UNICEF, 2019). De outro, países africanos perguntam: “e nós? Ainda nem industrializámos. Vamos ser penalizados por decisões tomadas por potências que poluíram durante 150 anos?”.

Esta tensão é legítima. Moçambique tem pleno direito de explorar seus recursos e usar a renda para melhorar a vida da sua população. Mas há uma verdade desconfortável: nem o modelo extractivista actual garante desenvolvimento, nem a lógica energética do 1% global salvará Cabo Delgado.

Há ainda outra camada de hipocrisia: quando Londres desinveste e Paris sinaliza cautela, o discurso ambiental parece “moralmente elevado”. Mas, ao mesmo tempo, países europeus importam gás natural de outras regiões, inclusive de Moçambique quando conveniente. O Ocidente quer ser verde no papel, mas não abandona a queima de fósseis na prática. Quem paga a conta? Sempre os mais fracos e pobres.

No entanto, é essencial não cair na armadilha simplista: “ou exploramos o gás ou ficamos pobres”. Essa chantagem energética paralisa o pensamento. O desenvolvimento não depende apenas da exportação de matérias-primas. Depende de capacidade de negociação, de distribuição justa de rendas, de diversificação económica, e de um Estado capaz de proteger os mais vulneráveis.

O projecto GNL em Cabo Delgado fracassou precisamente porque foi vendido como única saída. Quando os britânicos saem, a mensagem é brutal: “vocês colocaram todos os ovos num cesto que estava em chamas”.

Conclusão e Recomendações

O desinvestimento do Reino Unido é um momento histórico. Estremece as certezas, derruba o discurso triunfalista e obriga Moçambique a encarar a realidade: o futuro não será construído apenas com gás.

Mas o que fazer?

Primeiro: renegociar o modelo. O país precisa abandonar a postura submissa de mero anfitrião. O governo deve exigir maior conteúdo local, apoio à formação técnica da juventude, fundos permanentes para desenvolvimento distrital e mecanismos sérios de compensação às comunidades afectadas. As petrolíferas não são entidades beneficentes. Se querem extrair biliões de dólares, devem devolver algo além de promessas.

Segundo: democratizar a gestão das receitas. A história moçambicana mostra que grandes projectos geram grandes corrupção. O gás não deve repetir o script das dívidas ocultas. É preciso transparência: partilha pública de contratos, auditorias independentes, participação real do Parlamento e da sociedade civil. Se o Estado não for fiscalizado, a riqueza do gás será capturada por indivíduos ligados ao poder.

Terceiro: diversificar a economia agora. O país precisa sair da dependência de commodities. Agricultura, serviços, pesca sustentável, turismo, pequenas e médias indústrias, tudo isso gera emprego rápido. O gás pode ser uma componente, não o centro da estratégia.

Quarto: trazer dignidade a população de Cabo Delgado. Reconstruir casas, escolas, hospitais e aldeias destruídas não é favor, é obrigação constitucional e moral. A paz não se compra com discursos. A paz nasce de dignidade, emprego, inclusão e confiança no Estado.

Quinto: aprender com o desinvestimento britânico. O Ocidente mostrou que abandona projectos quando ficam politicamente inconvenientes. A lição é clara: Moçambique não pode depender cegamente de financiadores externos. Os parceiros mudam de agenda; quem fica somos nós.

No fim de tudo, o gás de Cabo Delgado pode ainda gerar riqueza, ninguém o nega. Mas a forma como o país tem lidado com ele revela mais fraquezas do que força. A retirada britânica não é um castigo; é um espelho. Ele mostra quão vulneráveis estamos, quão mal preparado está o Estado, e como a esperança de milhões depende de decisões feitas em gabinetes distantes.

Se quisermos sair deste ciclo, precisamos de abandonar os slogans e assumir responsabilidades. O futuro de Moçambique não será decidido em Londres nem em Paris. Será decidido na coragem de dizer: o gás não nos define; somos mais do que o nosso subsolo.

 

Referências

Ambrose, J. (01.12.2025). UK pulls $1.15bn support for Mozambique gas project after climate and terror concerns. Disponível em: https://www.theguardian.com/business/2025/dec/01/uk-loan-mozambique-gas-project-totalenergies?utm_source=chatgpt.com.

Amnesty International. (2021). O Que vi Foi a Morte: Crimes de Guerra no “Cabo Esquecido” de Moçambique. Disponível em: https://www.amnistia.pt/wp-content/uploads/2021/03/Relatorio_O-que-vi-foi-a-morte_Mocambique.pdf.

Climate Action Network International. (2024). US$5 trillion owed to Global South by Global North due to the climate crisis. Disponível em: https://climatenetwork.org/2024/09/20/us5trillion-owed-to-global-south-by-global-north-due-to-the-climate-crisis/.

Justiça Ambiental. (2020). Do Eldorado do Gás ao Caos: Quando a França Empurra Moçambique para Armadilha do Gás. Disponível em: https://www.foei.org/wp-content/uploads/2020/06/Gas-Mocambique_Portuguese.pdf.

Nações Unidas Moçambique. (2025). Jovens e Governo juntos pela transição energética justa e inclusiva. Disponível em: https://mozambique.un.org/pt/299210-jovens-e-governo-juntos-pela-transi%C3%A7%C3%A3o-energ%C3%A9tica-justa-e-inclusiva.

Rufin, J. (2023). Report on the socioeconomic, humanitarian and human rights situation in the Palma-Afungi-Mocímboa area. Disponível em: https://totalenergies.com/sites/g/files/nytnzq121/files/documents/2023-05/Mozambique_LNG_report.pdf.

Standard Bank. (2019). Projecto GNL Rovuma: Estudo Macroeconómico. Disponível em: https://corporateandinvestment.standardbank.com/static_file/CIB/PDF/2019/Sectors/Oil%20and%20Gas/Standard%20Bank%20Rovuma%20LNG%20Project%20Portuguese%20Report.pdf.

Unicef. (2019). Declaration on Children, Youth and Climate Action. Disponível em: https://www.unicef.org/environment-and-climate-change/climate-declaration.

40 Cities. (2021). Young activists are calling for action to reduce carbon emissions – cities can show how it’s done. Disponível em: https://www.c40.org/pt/news/youth-activists-are-calling-for-action-to-reduce-carbon-cities-can-show-how-this-is-done/.

 

 

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