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ESTE PAÍS TEM RUMO? É uma questão

Quando a comunicação pública se transforma em aparato de cobertura partidária, a pergunta deixa de ser apenas sobre jornalismo e passa a ser sobre o rumo do próprio país.

A Rádio Moçambique Jornal Notícias e a Televisão de Moçambique, órgãos públicos que deveriam estar ao serviço de todos os moçambicanos, voltam a levantar sérias interrogações sobre a forma como tratam acontecimentos de natureza política.

Para a cobertura da Reunião Nacional de Quadros da FRELIMO, marcada para os dias 21 a 23 de Agosto, na cidade de Chimoio, província de Manica, está a ser preparada uma estrutura de transmissão e cobertura que, pela dimensão e aparato mobilizado, contrasta com o tratamento dispensado a actividades de outras formações políticas.

E é aqui que surge a pergunta inevitável: este país tem rumo?

Não se questiona o direito de a Rádio Moçambique e a Televisão de Moçambique cobrirem a actividade de um partido político. Pelo contrário. Sendo órgãos públicos, devem informar sobre todos os acontecimentos de interesse nacional.

O problema começa quando a cobertura de um partido parece merecer uma estrutura privilegiada, enquanto actividades de outras formações políticas são tratadas de forma completamente diferente ou quando os acontecimentos envolvendo essas formações são cobertos sobretudo pelo seu lado mais negativo.

Recentemente, durante actividades de uma formação política da oposição, foram registados episódios de tensão, incluindo disparos, uso de gás lacrimogéneo e dispersão de membros e simpatizantes. Há também relatos de pessoas feridas e outras consequências graves que precisam de ser devidamente investigadas e confirmadas pelas autoridades competentes.

Mas a questão central permanece: onde estava a mesma máquina de cobertura e acompanhamento jornalístico dos órgãos públicos?

Onde estava a mesma capacidade técnica? Onde estava a mesma disponibilidade de meios? Onde estava a mesma preocupação em garantir ao cidadão uma cobertura ampla, equilibrada e independente?

A Rádio Moçambique e a Televisão de Moçambique não são órgãos da FRELIMO. Não são órgãos da RENAMO. Não são órgãos do MDM. Não são órgãos de qualquer outro partido.

São órgãos públicos.

E justamente por isso, devem pertencer editorialmente ao povo moçambicano.

O contribuinte que financia esses órgãos não é apenas membro ou simpatizante de um partido. É também o cidadão da oposição, o cidadão sem partido, o jovem desempregado, o camponês, o funcionário público e todos aqueles que têm direito a receber informação plural e equilibrada.

É legítimo questionar se a dimensão da operação montada para a Reunião Nacional de Quadros da FRELIMO seria igualmente disponibilizada para um congresso de outra formação política.

Se a resposta for não, então temos um problema sério.

E não é um problema técnico. É um problema de serviço público.

A cobertura jornalística não pode ser determinada pela proximidade política de quem organiza o evento. Um órgão público deve estar onde existe interesse público, e deve estar com a mesma seriedade, profissionalismo e independência, independentemente das cores partidárias.

Mais preocupante ainda é quando acontecimentos políticos da oposição são associados a violência, gás lacrimogéneo, disparos e desordem, enquanto actividades do partido no poder recebem uma preparação técnica e uma atenção mediática que transmite uma imagem de normalidade e institucionalidade.

A pergunta que os responsáveis pela comunicação pública precisam de responder é simples:

Rádio Moçambique, Jornal Notícias e Televisão de Moçambique estão a servir o Estado e o povo moçambicano ou estão, na prática, a servir interesses partidários?

Não basta dizer que são órgãos públicos. É preciso comportarem-se como tal.

Moçambique precisa de uma comunicação pública que não tenha medo de cobrir o poder, mas que também não tenha medo de cobrir a oposição. Precisa de jornalistas que façam perguntas difíceis, que acompanhem manifestações, congressos, reuniões e conflitos políticos com o mesmo rigor.

Porque democracia não se constrói apenas com eleições.

Constrói-se também com informação plural, acesso equitativo aos meios públicos e jornalismo independente.

Se existe dinheiro público para mobilizar câmaras, unidades móveis, equipas técnicas e estruturas de transmissão para um grande evento partidário, então o cidadão tem o direito de perguntar:

E para os outros partidos?

E para os outros cidadãos?

E para aqueles que também pagam impostos?

Este país tem rumo?

É uma questão. (Moz24h)

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