Sociedade

Escândalo no Comando Provincial da PRM em Cabo Delgado: concurso de ingresso manchado por suspeitas de corrupção e manipulação de resultados

Por Quinton Nicuete

 

 

 

Pemba, Cabo Delgado – O concurso de ingresso na Polícia da República de Moçambique (PRM), referente ao XLIV Curso Básico de Formação de Guardas de 2026, transformou-se num autêntico campo minado no Comando Provincial da PRM em Cabo Delgado, com denúncias graves que apontam para corrupção, extorsão e adulteração deliberada de resultados, lançando suspeitas sérias sobre a credibilidade de todo o processo.

 

O que deveria ser um exercício de mérito e transparência tornou-se num processo opaco, marcado por sucessivas alterações das pautas finais, sem explicações públicas convincentes. Candidatos inicialmente apurados passaram, de forma repentina, a constar como reprovados ou melhor “não transita por insuficiência de vagas”, enquanto outros, eliminados logo nas primeiras fases, ressurgiram como admitidos para seguir à Escola Prática de Polícia de Matalana, em Maputo, destino reservado apenas a quem cumpre todos os requisitos.

Apuramentos do Moz24h revelam pelo menos 20 casos de candidatos que figuravam como aprovados e que, após actualizações inexplicáveis, foram excluídos do processo. Em contrapartida, surgem denúncias de que concorrentes anteriormente reprovados terão sido “recuperados” mediante o pagamento de valores que variam entre 50 mil e 150 mil meticais, num alegado esquema de venda de vagas.

Há relatos considerados alarmantes: candidatos reprovados logo na prova de aptidão física, inspecção médica e exame escrito constam como aprovados na pauta final; candidatos que falharam fases eliminatórias foram instruídos a preparar-se para Matalana; enquanto outros, com resultados positivos desde o início, foram afastados sem direito a esclarecimentos formais. O padrão levanta fortes indícios de interferência ilícita e manipulação intencional dos resultados.

Fontes internas confirmam que o caso instalou um verdadeiro clima de tensão no seio do comando provincial. “Isto está quente. Há muito nervosismo porque o caso pode destapar coisas graves”, confidenciou uma fonte ao Moz24h, descrevendo o ambiente como um “vuku-vuku” sem precedentes no processo de recrutamento.

No exercício do contraditório, o Moz24h contactou a porta-voz do Comando Provincial da PRM em Cabo Delgado, Eugénia Nhamussua, que optou por remeter o assunto ao Comando-Geral da PRM. Já no Comando-Geral, o porta-voz Leonel Muchine solicitou provas, que foram partilhadas pela nossa redacção. No entanto, após o envio do material, o responsável deixou de atender as chamadas, apesar de várias tentativas de contacto realizadas ao longo do dia.

O escândalo não surge isolado. Antes mesmo da publicação das pautas finais, o Moz24h já havia alertado para suspeitas de extorsão na fase de inspecção médica do mesmo concurso. Candidatos denunciaram a cobrança ilegal de 1.500 meticais para exames médicos, apesar de o edital prever apenas uma taxa oficial de inscrição de 450 meticais.

Em Cabo Delgado, onde existem apenas 356 vagas para cerca de nove mil candidatos que tinha sido inscritos, a alegada cobrança foi descrita como generalizada. Caso se confirme, o esquema poderá ter gerado mais de 13,5 milhões de meticais só nesta província.

Há relatos de chamadas telefónicas directas a determinados candidatos, instruindo-os a preparar viagem para Matalana, fora de qualquer procedimento público ou transparente.

O impacto financeiro sobre os concorrentes é igualmente pesado. Os candidatos apurados são obrigados a custear do próprio bolso as despesas de deslocação até Matalana e, em caso de reprovação na reinspecção médica, também o regresso às suas províncias, acumulando prejuízos num contexto de elevado desemprego juvenil.

Numa província marcada pela pobreza e pela falta de oportunidades, o concurso da PRM representa para milhares de jovens uma das poucas portas de saída do desemprego, agora ameaçada por denúncias que mancham a imagem da instituição.

As revelações colocam pressão directa sobre o Comando-Geral da PRM, o Ministério do Interior e a Procuradoria-Geral da República, que são chamados a intervir com urgência para esclarecer os factos, responsabilizar eventuais envolvidos e restaurar a confiança num processo que não pode continuar envolto em suspeitas.

O Moz24h soube, através de fontes ligadas ao processo, que a deslocação dos candidatos apurados na pauta final está agendada para este final de semana ou, no máximo, para a próxima segunda-feira.

O Moz24h continuará a acompanhar o caso.

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