A análise baseia-se na continuidade histórica dos planos de engenharia luso-sul-africanos, dados da LIMCOM e eventos atuais reportados em janeiro de 2026.
1. A Génese: O Plano dos Anos 50 e 60
No auge do Estado Novo, o Vale do Limpopo foi visto como o futuro “celeiro de Moçambique”. A visão era tecnocrática e ambiciosa. Portugal e a África do Sul (RSA) desenharam um sistema que deveria funcionar como uma engrenagem única. O que foi feito: A construção do regadio do Chókwè e da Barragem de Massingir (concluída em 1975). Massingir deveria ser o escudo contra as águas vindas da RSA.
O que ficou por fazer: A peça-chave, a Barragem de Mapai , situada no tronco principal do Limpopo. Sem ela, Moçambique recebe o fluxo direto do rio sem qualquer “torneira” de controlo na entrada do país.
2. O Entrave: Por que o plano falhou? A transição para a independência e a subsequente guerra civil em Moçambique paralisaram os grandes projetos. Mas os porquês vão além da política:
Falhas de Engenharia: Massingir, logo após a inauguração, revelou problemas graves de infiltração. Em vez de ser a solução, tornou-se uma preocupação, com restrições constantes no nível da albufeira para evitar o colapso.
Geopolítica da Água: Durante o Apartheid, a cooperação era tensa e estratégica. Após 1994, com a criação da LIMCOM (Comissão do Limpopo), a cooperação tornou-se diplomática, mas a prioridade da RSA continua a ser a proteção das suas infraestruturas (como o Kruger Park e as suas próprias barragens a montante).
3. A Atualidade (Janeiro de 2026)
Estamos a viver o que os técnicos chamam de “ciclo de retorno extremo”. Em janeiro de 2026, as chuvas na RSA e no Zimbabwe forçaram descargas massivas. A Colaboração da RSA: Atualmente, a RSA colabora de duas formas:
Operacional: Através da partilha de dados hidrológicos em tempo real (essencial para que Moçambique saiba com quantas horas de antecedência o pico chegará ao Chókwè).
Emergência: Como se vê agora em 2026, com o envio de meios aéreos e equipas de resgate (Operação Chariot) para apoiar o governo moçambicano nas zonas inundadas.
O Problema Persistente:
A colaboração no salvamento é excelente, mas a colaboração na prevenção esbarra no custo. A RSA não tem interesse direto em financiar Mapai (em solo moçambicano), e Moçambique não teve, até recentemente, capacidade financeira para o fazer sozinho.
4. O que se prevê para o futuro?
O novo Programa Nacional de Recursos Hídricos (2025-2043) de Moçambique assume que os diques atuais são insuficientes para a nova realidade climática.
A Solução “Mapai” :
Voltou à mesa com força. Estima-se um investimento de 700 milhões de dólares. É a única infraestrutura capaz de regular o caudal de 15000 m3/s que vimos este mês.
Resiliência Local: A previsão é que, enquanto Mapai não nasce, o foco será elevar e alargar os diques de Chókwè e Xai-Xai, criando “zonas de sacrifício” (áreas agrícolas que podem inundar para salvar os centros urbanos).
Conclusão
O plano colonial era técnicamente correto na sua escala, mas políticamente impossível na sua época. Hoje, o problema não é a falta de Plano — que existem e são sólidos — mas o fosso financeiro entre o custo de uma barragem gigante e a economia de um país fustigado por cheias cíclicas. A RSA colabora no “curativo” (resgate), mas o “tratamento” (Mapai) continua a aguardar investimento internacional.

