Por Tiago J.B. Paqueliua
Cabo Delgado, no norte de Moçambique, vive uma tragédia prolongada. O terror jihadista encontrou terreno fértil numa região marcada pela pobreza extrema, pela exclusão histórica e, sobretudo, pelo colapso moral e funcional do Estado.
Nesse contexto, sobressai — de forma quase escandalosa — o contraste entre duas forças de segurança: as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique (FDS), auxiliadas por milícias locais, e a Força de Segurança do Ruanda (RSF), destacada para uma missão de estabilização.
Mais do que táctico, o contraste é ético e civilizacional. Um exemplo eloquente pode ser observado na estrada que liga o cruzamento Silva Macua ao controlo de Awasse — eixo estratégico para Mocímboa da Praia e Moeda. Ali, diariamente, ruandeses saúdam viajantes, prestam apoio a viaturas avariadas e interagem com cortesia. Já os moçambicanos, supostos guardiões da ordem, mantêm até onze postos de controlo, onde se exige pagamento ilícito a quem ali passa. Motoristas e passageiros são sistematicamente extorquidos, numa rotina que naturaliza o abuso e solidifica o medo.
Há ainda denúncias recorrentes de elementos das FDS e de milicianos que se disfarçam de terroristas para perpetuar atrocidades e confundir a população. Assim, a linha entre protetor e agressor torna-se turva, perigosa e moralmente insustentável.
Em contraste, os ruandeses têm se revelado um raro exemplo de disciplina militar aliada à solidariedade social. A doação recente de um barco de pesca à Cooperativa Mashalla, em Palma, é apenas uma entre várias ações que refletem uma lógica autêntica de policiamento comunitário — não apenas retórica.
O objetivo da RSF é claro: estabilizar por meio da reconstrução, não pela submissão armada.
Francis Muheto, comandante do setor norte da componente policial da RSF, sintetizou bem a missão ao afirmar: “O nosso objetivo é reforçar a paz por meio do desenvolvimento.” Mesmo atuando num território estrangeiro, os ruandeses demonstram um compromisso raro: entendem que não há segurança sem dignidade, nem paz sem justiça social.
Enquanto isso, Moçambique continua refém de um modelo de segurança retrógrado, clientelista e predador. A farda, em vez de símbolo de proteção cidadã, tornou-se escudo para o saque institucionalizado. Em vez de erguerem pontes de confiança, levantam muros de desespero. Em vez de protegerem o povo, exploram suas fragilidades.
É uma ironia trágica: um país estrangeiro, com seus próprios desafios internos, está a ensinar Moçambique o verdadeiro significado da autoridade legítima e da responsabilidade cívica.
A verdade, por mais desconfortável que seja, é esta: os ruandeses comportam-se como irmãos; os moçambicanos, como carrascos. Não é uma falha de formação militar — é um problema de cultura de poder.
Uma elite militar e política sem empatia, moldada por décadas de impunidade e ausência de accountability, tornou-se reflexo fiel do Partido-Estado. Daí a máxima: Tal Pai, Tal Filho.
Enquanto a tropa ruandesa semeia confiança e esperança, as forças moçambicanas colhem medo e rancor. Enquanto os ruandeses doam barcos de pesca para restaurar meios de subsistência, os moçambicanos extorquem quem tenta apenas escapar do terror.
Em alguns casos, mesmo fugindo de ataques, civis são forçados a pagar 5 mil meticais às FDS para atravessar zonas perigosas — ou permanecerem no corredor da morte.
Quando um terrorista se arrepende e deseja reintegrar-se à vida civil, são os familiares que negociam com os ruandeses, que facilitam o processo de retorno — à revelia das FDS, para proteger o retornado.
Por isso, é preciso dizer com clareza: o povo de Cabo Delgado está hoje mais seguro graças à tropa ruandesa — e não graças ao seu próprio exército. Esta realidade, tão dolorosa quanto vergonhosa, deveria envergonhar profundamente os dirigentes moçambicanos. Se ainda lhes restasse algum sentido de vergonha.
Conclusão
Que isto sirva de lição: não se combate o terror com prepotência, mas com humanidade. Enquanto persistir essa inversão de valores, será sempre o estrangeiro a reconstruir aquilo que os próprios moçambicanos destroem.
