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Cabo Delgado sabe que se a mentira tivesse pernas compridas, acreditaria nas mentiras que agravam o seu sofrimento

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

Há uma paz que se proclama em discursos, e há uma guerra que se escuta nos gritos abafados de um povo que já esqueceu o som do silêncio. Cabo Delgado é hoje, como sempre foi nos últimos anos, o palco de uma tragédia encoberta pela retórica da normalidade — esse eufemismo que transforma desespero em estatística e dor em nota de imprensa.

“Está sob controlo.” Dizem.
“Situação normalizada.” Insistem.
“Tudo a decorrer dentro da normalidade.” Mentem.

Mas quem vive nas aldeias calcinadas, quem já chorou mais enterros do que festas, quem se habituou ao som das balas como quem se habitua à chuva na estação húmida, sabe que a verdade não cabe em comunicados. A normalidade que se vende ao país não passa de esterco: de longe, parece limpa; de perto, percebe-se suja de sangue, poeira e descaso.

Aparecem — quando aparecem — com promessas embrulhadas em discursos gastos. Infraestruturas que vão ser erguidas, apoios que vão ser canalizados, segurança que vai ser garantida. Tudo no próximo futuro. Tudo distante. Tudo condicionado. No presente, o que há é fome, medo e deslocamento sem rumo.

A mentira, nesta terra, aprendeu a usar farda. Anda de microfone na mão, entra nos noticiários em horário nobre, de gravata brilhante e sorriso mecânico. A cobertura jornalística oficial prefere as inaugurações, as conferências, os eventos em Maputo — e ignora os escombros em Muidumbe, os campos de deslocados em Montepuez, os rostos apagados de Macomia, Ibo e Palma. Falam de esperança, mas não dizem de onde vem nem para quem.

E então, perguntam: por que o povo não acredita mais?
Porque, nesta terra, a verdade não precisa ser dita para ser sentida.
Porque a dor não é ideológica.
Porque a fome não tem partido.
Porque a bala não escolhe quem votou em quem.

Se a mentira tivesse pernas compridas, talvez conseguisse correr mais depressa do que os boatos, os rumores, a suspeita. Talvez ultrapassasse os sobreviventes, os deslocados, os órfãos — e então, quem sabe, o povo acreditasse. Mas aqui, em Cabo Delgado, a mentira tem pernas curtas, e o povo tem memória longa. Já viu demasiado para se deixar enganar por promessas pintadas de ouro falso.

Não se trata de pessimismo. Trata-se de lucidez.
Quem vive aqui aprendeu que a esperança não está nos discursos.
Está na solidariedade entre vizinhos.
Na resiliência dos que ainda voltam a plantar, mesmo sem saber se vão colher.
Na força de quem constrói abrigo com as próprias mãos, enquanto os que juraram proteger descansam sob tetos seguros, longe do som da guerra, sob a proteção de Deus.

Cabo Delgado não quer mais promessas. Quer factos, quer presença realizadora. Quer verdade. Quer justiça.
E se não pode ter tudo, que ao menos não o façam engolir mais mentiras.

Porque mesmo com pernas curtas, a mentira corre rápido demais nos corredores do poder.
Mas aqui, entre o povo, há quem saiba parar e escutar.
E quem escuta a terra, sabe: a verdade não se cala para sempre, e em silêncio se fala mais alto, aqui em Cabo Delgado.

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