Internacional Sociedade

A CABEÇA DE LOURENÇO (PARTE 2)

 

Os salvadores de ocasião

Higino Carneiro é o retrato de outra cumplicidade: a de quem só descobre os vícios do sistema quando dele é afastado. Durante décadas, integrou a elite do MPLA e ajudou a consolidar uma cultura de obediência e intolerância à dissidência. Agora, excluído da disputa pela presidência do partido, confronta-se com a ausência do pluralismo que o sistema nunca ofereceu aos outros. A máquina só se lhe tornou intolerável quando lhe fechou a porta.

O partido invoca irregularidades na candidatura, contestadas pelo general. Essa disputa não apaga a sua responsabilidade política. Perder acesso ao comando não transforma um antigo beneficiário em libertador. A democracia não nasce do ressentimento de um dirigente afastado. O sofrimento dos cidadãos existia quando ele circulava confortavelmente nos corredores do poder.

Que liberdade está Higino Carneiro disposto a defender sem cargo, sem privilégios e sem garantia de regresso? A liberdade dos angolanos ou apenas a sua oportunidade de mandar? A solidariedade com o povo tem pouco valor quando só aparece depois da perda de influência pessoal.

O tempo dos salvadores iluminados terminou. Não é o povo que deve ir apoiar Higino; é Higino que deve ir ter com o povo que, no passado, abandonou.

A UNITA e os demais partidos da oposição também não escapam a esta crítica. Os interesses dos seus dirigentes ocupam demasiado espaço numa luta que se proclama nacional. Um projecto para o bem comum deve assentar em ideias realistas, capazes de responder aos problemas concretos do país, mobilizar os cidadãos e fortalecer uma identidade comum. É em torno dessas ideias e de compromissos para as concretizar que importa congregar a sociedade. O seguidismo em torno de líderes subordina a causa colectiva às ambições individuais e empobrece a participação dos cidadãos, chamados a engrossar as fileiras quando deveriam participar na definição do rumo.

O sofrimento popular torna-se argumento de comício, enquanto as conveniências partidárias e pessoais continuam no centro das decisões.

Uma oposição que reclama liberdade para chegar ao poder, mas subordina os cidadãos às ambições dos seus chefes, conserva a essência do autoritarismo. Disputa o lugar de quem manda e deixa intacta a condição de quem obedece. A cidadania continua prisioneira da carreira dos políticos.

O futuro sequestrado

A inércia social revela a sua violência mais profunda na educação. Os poderosos enviam os filhos para o estrangeiro. Quem pode compra uma saída no ensino privado. Milhões de famílias enfrentam a escola pública como um destino individual, sem conseguirem transformar a preocupação com os filhos numa força comum. Cada família procura escapar isoladamente.

Quando um pai paga para o filho transitar de classe sem aprender, participa na falsificação do futuro da criança. O diploma ocupa o lugar do conhecimento. A fraude oferece uma pequena vitória doméstica e prepara uma derrota colectiva. Uma sociedade que aceita esta troca entrega ao poder gerações menos preparadas para compreender e contestar a sua própria exploração.

O Ministério da Educação documentou o abandono. Numa apresentação de 2023, baseada num levantamento de 2021-2022, registou que 89% das escolas públicas inquiridas não tinham cabimentação orçamental no Sistema Integrado de Gestão Financeira do Estado (SIGFE). Seis em cada dez não tinham acesso a água. Apenas 40% dispunham de instalações sanitárias funcionais. O Estado conhece a dimensão da indignidade a que estão sujeitas as nossas crianças.

Lourenço anunciou escolas de referência em 2021. Cinco anos depois, que resultados de aprendizagem pode apresentar aos pais? A sucessão de anúncios não lava uma casa de banho, não prepara um professor e não ensina uma criança a ler. A publicidade presidencial ocupa o espaço onde deveriam estar os resultados da governação. E este padrão repete-se sistematicamente.

A extraordinária evolução tecnológica conduziu o mundo à era da inteligência artificial. Uma escola presa a manuais e modelos caducos remete as crianças para um futuro de ignorância, em que a corrupção passa a ser a única escada viável de mobilidade social. O ensino que recompensa a repetição e desencoraja a pergunta prolonga a dependência intelectual de que o autoritarismo do MPLA se alimenta.

Quando a sociedade não consegue mobilizar-se pela saúde e educação dos seus filhos, a promessa de um país justo torna-se uma mentira. A sobrevivência fecha cada cidadão no seu pequeno problema. Procura-se a vaga, a cunha, o favor. A protecção de um poderoso parece mais eficaz do que um direito partilhado com milhões de desconhecidos. É a falta de solidariedade entre os que sofrem.

Mancur Olson explicou a vantagem dos pequenos grupos organizados perante grandes maiorias dispersas. Em Angola, os beneficiários da corrupção conhecem-se, coordenam-se e protegem-se. Os prejudicados acumulam razões para se unir, mas continuam divididos. O poder recebe dessa fragmentação uma força que a sua inteligência, competência e legitimidade nunca lhe dariam.

A desinformação completa o cerco. Sem conhecimento e debate livre, a indignação dispersa-se em intrigas, boatos, insultos e suspeitas entre cidadãos. O poder ganha quando o vizinho parece mais perigoso do que o governante que decide sobre a vida de ambos.

A saída do general

Lourenço beneficia desta modorra, mas ela não o protegerá para sempre. Quem confunde deferência com respeito arrisca-se a descobrir, fora do cargo, quanto vale a sua pessoa sem o poder.

O mesmo cálculo atravessa os quartéis. Ao fim de nove anos, que dignidade ofereceu o general-presidente aos soldados de quem espera lealdade? A vida da tropa mede-se no alojamento, na alimentação, no saneamento e na assistência médica. Um general que não cuida da tropa pode esperar dela algum carinho na reforma?

Lourenço herdou o poder que José Eduardo dos Santos lhe entregou de bandeja. Até então, não se conheciam ao general Lourenço feitos militares, dotes de tribuno ou obra governativa que o distinguissem.

José Eduardo tentou conservar o comando do MPLA com Lourenço na Presidência da República. A bicefalia não durou um ano. Lourenço conhece esse precedente porque foi ele o beneficiário da sua destruição. Permanecer à frente do partido seria impor ao sucessor a tutela de que ele próprio se libertou. Porque aceitaria o próximo presidente uma subordinação que Lourenço recusou?

João Lourenço precisa de uma estratégia para sair em paz. O povo permanece sem uma estratégia comum para resgatar o Estado. Entre a segurança de um homem e a liberdade de milhões, a sociedade continua a adiar o seu próprio futuro.

Depois de nove anos de captura do Estado, saque e incompetência governativa, como imagina João Lourenço continuar a mandar em Angola, enquanto presidente do MPLA, depois de deixar a Presidência da República? Terá preparado já o seu exílio dourado ou mudará de cabeça para superar a implacável rejeição popular que o seu nome hoje representa em toda a Angola?

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