Opiniao

O meu continente chama-se África

Por Quinton Nicuete

 

África acorda cedo.
Muito antes do sol nascer por completo, já existem mulheres caminhando quilómetros à procura de água, pescadores lançando redes ao mar, jovens correndo atrás de “mais uma oportunidade” e crianças atravessando estradas poeirentas para chegar à escola. África nunca dorme totalmente, porque aprendeu, desde cedo, que sobreviver também é uma forma de resistência.

Hoje celebra-se o Dia de África. E sempre que esta data chega, pergunto-me se o continente precisa apenas de celebração ou de uma conversa séria consigo mesmo. Porque África é bela, mas também profundamente ferida. É rica, mas continua cercada pela pobreza. É livre no papel, mas ainda aprisionada por guerras, corrupção, fome e divisões que parecem intermináveis.

O meu continente canta, dança, produz petróleo, gás, ouro, diamantes e gente talentosa. Mas também enterra filhos vítimas de conflitos armados, deslocamentos e terrorismo. Em várias partes de África, há crianças que sabem distinguir o som de tiros antes mesmo de aprenderem a escrever o próprio nome. Isso não deveria ser normal.

Em Cabo Delgado, no leste da minha África, milhares de famílias continuam a fugir da violência. Casas queimadas, escolas destruídas, mães separadas dos filhos, aldeias inteiras transformadas em silêncio e cinza. E o mais triste é perceber que, muitas vezes, o continente assiste à dor dos seus próprios irmãos com uma distância preocupante. Como se a tragédia do outro estivesse longe demais para importar.

Mas África não pode continuar a ser um continente de fronteiras emocionais.
Precisamos reaprender a ideia de união.

Os líderes africanos gostam de falar de integração, de desenvolvimento, de cooperação continental. Fazem cimeiras, discursos bonitos e fotografias históricas. Porém, a verdadeira união africana ainda está por nascer dentro das comunidades, das políticas públicas e da forma como tratamos os nossos próprios cidadãos. Não haverá unidade africana enquanto jovens morrerem no Mediterrâneo tentando fugir do próprio continente. Não haverá liberdade africana enquanto milhões dependerem de ajuda externa para comer.

O Dia de África devia servir menos para discursos formais e mais para reflexão colectiva. Que continente queremos deixar às próximas gerações? Um continente rico em recursos e pobre em dignidade? Um continente onde a juventude é maioria, mas continua sem emprego, sem voz e sem esperança?

Apesar de tudo, continuo a acreditar em África.
Acredito porque vejo jovens criando soluções onde os governos falham. Vejo jornalistas arriscando a vida para contar histórias que o mundo prefere ignorar. Vejo mulheres sustentando famílias inteiras com força quase invisível. Vejo comunidades partilhando o pouco que têm durante as crises. África ainda respira humanidade em lugares onde o mundo já perdeu sensibilidade.

Talvez a maior riqueza africana nunca tenha sido o ouro, o petróleo ou os diamantes. Talvez seja a capacidade do seu povo de continuar em pé, mesmo depois de tantas quedas.

O meu continente precisa de paz.
Precisa de líderes comprometidos com pessoas e não apenas com poder. Precisa de educação que liberte, de justiça que funcione e de uma juventude que não aceite herdar o silêncio como destino.

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