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QUANDO A VERDADE VEM DE DENTRO: O estudo das FDS e as causas do conflito em Cabo Delgado

Foto: Estacio Valoi

 

Jerry Maquenzi

A divulgação recente pela STV do estudo das Forças de Defesa e Segurança (FDS) sobre as causas do conflito em Cabo Delgado trouxe uma novidade que não pode passar despercebida: pela primeira vez, uma instituição militar do Estado reconhece de forma explícita os múltiplos factores que alimentam a insurgência no norte do país. Se até há poucos anos a narrativa dominante restringia-se a explicações simplistas – como a infiltração de “terroristas externos” – hoje a própria análise das FDS admite que as origens são internas, estruturais e complexas.

De acordo com o documento, quatro grandes eixos explicam o conflito: (1) a fragilidade institucional do Estado; (2) factores étnicos, religiosos e culturais; (3) factores económicos e sociais; e (4) factores políticos e geográficos, com ênfase na relação Moçambique – Tanzânia e nos fluxos transfronteiriços de pessoas e bens.

O mais relevante, contudo, é que estes diagnósticos dialogam directamente com aquilo que diversos estudos independentes já vinham demonstrando, (Habibe, Forquilha & Pereira, 2019)  incluindo os meus trabalhos e os de João Feijó. A convergência de conclusões entre a investigação académica e a percepção das próprias forças de defesa deveria abrir espaço para uma reflexão honesta sobre o rumo das políticas públicas no norte de Moçambique.

  1. Pobreza, Desigualdades e Conflitos: A Base Estrutural

No estudo sobre Pobreza, desigualdades e conflitos no norte de Cabo Delgado, eu e João Feijó, argumentamos que a insurgência encontrou terreno fértil num contexto de profundas desigualdades regionais e sociais. Cabo Delgado figura há décadas entre as províncias mais pobres do país (INE, 2023), apesar de ser simultaneamente palco de megaprojectos de gás e mineração. Esta contradição – abundância de recursos versus miséria local – produz frustração e sentimentos de exclusão.

O estudo das FDS confirma esta leitura ao apontar factores económicos e sociais como causas centrais. A pobreza persistente, a exclusão dos jovens dos benefícios da exploração de recursos e a precariedade dos serviços públicos não são apenas problemas sociais, mas combustíveis de revolta.

  1. Assimetrias no Acesso ao Estado: Terreno Fértil para o Jihadismo

Outro estudo do João Feijó, Assimetrias no acesso ao Estado: um terreno fértil de penetração do Jihadismo islâmico?, destaca como o Estado moçambicano se encontra ausente ou mal representado em várias áreas do norte. Onde o Estado aparece, muitas vezes surge associado à corrupção, ao clientelismo ou à repressão (Feijó, 2020).

As FDS, ao falarem de “fragilidade institucional”, confirmam este diagnóstico. A incapacidade do Estado em oferecer justiça, serviços e oportunidades cria um vazio que foi preenchido por actores insurgentes. Estes, com discursos religiosos ou identitários, oferecem uma narrativa alternativa de pertença e dignidade a populações marginalizadas. A fragilidade do Estado, portanto, não é apenas administrativa: é um problema de legitimidade.

  1. Os Ingredientes Para Uma Revolta Juvenil

No texto Ingredientes para uma revolta de jovens – Pobreza, sociedade de consumo e expectativas frustradas, Feijó, Maquenzi & Agy (2022), sublinham que a juventude de Cabo Delgado vive uma situação paradoxal. Por um lado, estão expostos à sociedade de consumo, ao brilho das cidades e às promessas de riqueza associadas ao gás natural. Por outro, enfrentam desemprego massivo, ausência de perspectivas e uma estrutura social hierárquica que limita a mobilidade.

As FDS, ao incluírem factores económicos e sociais, dão razão a esta análise: são sobretudo jovens, marginalizados e sem futuro claro, que alimentam as fileiras insurgentes. A revolta não nasce apenas da falta de pão, mas também das expectativas frustradas de quem se sente enganado pelas promessas do desenvolvimento.

  1. Dimensões Culturais, Étnicas e Religiosas

O estudo militar também aborda os factores étnicos, religiosos e culturais. Este ponto é delicado, pois pode ser mal interpretado e instrumentalizado para estigmatizar comunidades inteiras. A investigação de Feijó (2020) tem mostrado que, embora haja elementos de radicalização religiosa, estes apenas ganham força porque encontram ressonância em desigualdades pré-existentes, nomeadamente, a marginalização histórica de comunidades muçulmanas no acesso a emprego público, educação e representação política.

Assim, não é a religião em si que explica o conflito, mas o modo como as linhas religiosas e étnicas se entrelaçam com desigualdades económicas e exclusão social. A própria referência das FDS a estes factores confirma que não podemos ignorar as tensões culturais acumuladas ao longo de décadas.

  1. Factores Políticos e Geográficos: A Fronteira como Catalisador

Por fim, o estudo das FDS reconhece o papel das dinâmicas transfronteiriças. A proximidade com a Tanzânia facilitou a circulação de pessoas, bens e ideias, incluindo redes de contrabando, tráfico e mobilidade de combatentes. Aqui também encontramos sintonia com a análise académica: Cabo Delgado é um espaço periférico, mas intensamente conectado por fluxos informais e transfronteiriços que escapam ao controlo estatal (Feijó, 2024; Maquenzi, 2025).

Esta dimensão mostra que o conflito não pode ser reduzido a uma guerra “local”. Trata-se de uma insurgência com raízes locais, mas que dialoga com redes regionais, aproveitando fronteiras frágeis e economias paralelas.

  1. Desenvolvimento Socioeconómico num Contexto de Conflito: O Desafio de Sempre

Em Desenvolvimento socioeconómico de Cabo Delgado num contexto de conflito, Feijó, Souto e Maquenzi (2020) defenderam que qualquer estratégia de paz e reconstrução deve ir além da resposta militar. Sem enfrentar a pobreza estrutural, as desigualdades no acesso ao Estado e as frustrações da juventude, o conflito tenderá a reinventar-se, mesmo após derrotas militares insurgentes.

O estudo das FDS, ao reconhecer que as causas são múltiplas e interdependentes, deveria servir como ponto de viragem para políticas mais holísticas. Contudo, permanece a questão: será que as instituições estatais estão dispostas a traduzir este diagnóstico em acções concretas que incluam as populações locais?

 

Conclusão

A principal lição do estudo divulgado pela STV é que, finalmente, há uma convergência entre o diagnóstico oficial e o diagnóstico académico. Tanto as FDS quanto as investigações independentes reconhecem que o conflito em Cabo Delgado é fruto de uma combinação de pobreza extrema, desigualdades históricas, fragilidade institucional, tensões identitárias e fluxos regionais.

Mas identificar as causas não basta. É preciso coragem política para romper com as práticas de exclusão, com a captura de recursos por elites distantes e com a ideia de que a segurança se resolve apenas com armas. A insurgência em Cabo Delgado não é apenas um problema militar: é, sobretudo, um sintoma de um projecto de Estado inacabado, incapaz de incluir todos os seus cidadãos.

Enquanto esta verdade não guiar a acção governamental, continuaremos a repetir diagnósticos já conhecidos, sem alterar a realidade no terreno. O estudo das FDS, paradoxalmente, confirma que os insurgentes são, antes de tudo, produto das falhas do próprio Estado.

 

Referências

Feijó, J.; Souto, A. & Maquenzi, J. (2020). Desenvolvimento Socioeconómico de Cabo Delgado Num Contexto de Conflito. In Observador rural no 101. Maputo. OMR e GAPI.

Feijó, J.; Maquenzi, J & Agy, A. (2022). Ingredientes para uma Revolta de Jovens – Pobreza, Sociedade de Consumo e Expectativas Frustradas. In Observador Rural nº 121. Maputo. OMR.

Feijó, J. (2020). Assimetrias no Acesso ao Estado: Um Terreno Fértil de Penetração do Jihadismo Islâmico? In Observador Rural nº 93. Maputo. OMR.

Feijó, J. (2024). Relações Transfronteiriça entre Moçambique e Tanzânia. In IV Conferência OMR-UCM Sobre Conflito e Desenvolvimento em Cabo Delgado. Pemba.

Habibe, S.; Forquilha, S. & Pereira, J. (2019). Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique. In cadernos IESE nº 17. Maputo. IESE.

INE. (2023). “Inquéritos ao Orçamento Familiar – IOF 2022”. Maputo. Instituto Nacional de Estatística.

Maquenzi, J & Feijó, J. (2019). Pobreza, Desigualdades e Conflitos no Norte de Cabo Delgado. In Observador Rural nº 76. Maputo. OMR.

Maquenzi, J. (2025). A Economia Ilícita em Cabo Delgado: Conivência e Conflitualidade entre Sectores de uma Classe-Estado e da População. In Destaque Rural nº 314. Maputo. OMR.

STV. (11.09.2025). Fragilidade Institucional Contribui para Terrorismo em Cabo Delgado. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OVgiKzZ8X7I.

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