Há uma disputa aberta no mercado global: as estratégias dos países e empresas reflectem uma preocupação crescente em assegurar o acesso a minérios que Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.se tornaram essenciais, mas cujo fornecimento está estrangulado.
O mercado global de terras raras entrou numa fase de crescimento sustentado, impulsionado por transformações estruturais na economia mundial. Segundo um estudo da consultora Mordor Intelligence, o sector deverá crescer a uma taxa média anual superior a 8%, passando de cerca de 10 mil milhões de dólares em 2024 para um intervalo entre 14 e 16 mil milhões até ao final da década. Esta trajectória é corroborada por outras consultoras internacionais. A Grand View Research aponta para uma expansão ainda mais robusta, sustentada pela procura crescente de ímanes permanentes, enquanto a Allied Market Research destaca o papel crítico das terras raras na electrificação dos transportes.
Já a Bloomberg NEF sublinha que a cadeia de minerais críticos, em que as terras raras ocupam um lugar central, será uma das mais pressionadas nas próximas duas décadas, à medida que a economia global acelera a descarbonização. Mais do que o valor absoluto do mercado, o que chama a atenção dos analistas é a sua elasticidade face à inovação tecnológica: cada avanço em mobilidade eléctrica, energias renováveis ou inteligência artificial reforça a procura.
Depois de anos a ganhar relevância silenciosa, as terras raras entraram numa fase de disputa aberta entre potências globais
Cadeias de valor sob pressão
Se a procura cresce, a oferta continua marcada por constrangimentos estruturais. A cadeia de valor das terras raras permanece altamente concentrada e tecnicamente exigente, com pontos críticos sobretudo nas fases de separação e refinação (processos complexos, intensivos em capital e ambientalmente sensíveis).
Dados de 2024 da US Geological Survey (USGS) — agência científica do Governo dos Estados Unidos responsável por monitorizar recursos naturais e produzir dados geológicos de referência global — indicam que, embora existam reservas distribuídas por vários continentes, a capacidade de processamento continua fortemente centralizada. Esta assimetria cria um mercado vulnerável a choques de oferta, a volatilidade de preços e a decisões políticas.
A Agência Internacional de Energia (EIA) alerta, no seu relatório sobre minerais críticos, que os prazos de desenvolvimento de novos projectos mineiros podem ultrapassar uma década, o que dificulta a resposta ao rápido aumento da procura. Em paralelo, exigências ambientais mais rigorosas nos países ocidentais têm travado ou atrasado novos investimentos, contribuindo para manter a oferta limitada, mas protegendo o planeta e a vida.

A arquitectura dominante da China
A liderança da China no mercado de terras raras não é um acaso geológico, mas resultado de uma estratégia industrial consistente ao longo de décadas. O país consolidou uma posição dominante na extracção e, sobretudo, no processamento, o verdadeiro centro de valor da cadeia. Segundo o USGS, a China continua a responder por cerca de 60% da produção global, mas a sua quota ultrapassa os 80% quando se trata de refinação. Este controlo permite-lhe exercer uma influência significativa sobre os preços e os fluxos comerciais.
Relatórios do Center for Strategic and International Studies (CSIS), um influente centro de investigação sediado em Washington, especializado em análise de política internacional, segurança e economia global, destaca que Pequim utilizou historicamente este domínio como instrumento de política externa, nomeadamente durante as tensões comerciais com o Japão e os Estados Unidos. Ainda que restrições explícitas sejam raras, a possibilidade de intervenção estatal permanece um factor de risco para os mercados. Empresas estatais como a China Northern Rare Earth e a China Minmetals consolidam este ecossistema, beneficiando de economias de escala e de uma integração vertical difícil de replicar no curto prazo.
A resposta dos EUA e de outros países
Face a este domínio da China, os Estados Unidos e outros países têm intensificado esforços para reconstruir capacidades domésticas. A mina de Mountain Pass, na Califórnia, voltou a ganhar relevância estratégica, mas continua dependente de processamento externo, frequentemente na China. O Governo norte-americano tem incentivado projectos de mineração, refinação e reciclagem. Ao mesmo tempo, o Departamento de Defesa tem apoiado iniciativas para garantir cadeias de abastecimento resilientes, especialmente para aplicações militares.
Novos pólos emergentes
Num mercado em reconfiguração, países como a Austrália e o Canadá surgem como alternativas credíveis à hegemonia chinesa. A australiana Lynas Rare Earths, por exemplo, consolidou-se como o maior produtor fora da China, com operações que incluem processamento na Malásia. O Canadá aposta numa abordagem integrada, combinando exploração mineira com desenvolvimento tecnológico e padrões ambientais elevados. Já em África, o potencial geológico começa a atrair atenção crescente.
A Tanzânia e Madagáscar já avançaram com projectos relevantes, enquanto Moçambique surge no radar de investidores internacionais. Ainda numa fase inicial, o País até poderia ter uma janela de oportunidade, mas são poucas ainda as perspectivas de que consiga atrair investimento e desenvolvê-lo. Relatórios do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) sublinham que o continente pode desempenhar um papel crucial na diversificação da oferta global, mas alertam para a necessidade de garantir valor acrescentado local, evitando repetir modelos extractivos do passado.
Geopolítica de um recurso estratégico
A crescente centralidade das terras raras transformou-as num activo geopolítico de primeira ordem. A competição pelo seu controlo insere-se numa dinâmica mais ampla de rivalidade tecnológica e industrial entre grandes potências. Segundo a Agência Internacional de Energia (EIA), a concentração da oferta em poucos países aumenta o risco de disrupções, enquanto a crescente procura por tecnologias limpas intensifica a pressão sobre os recursos disponíveis. Este cenário tem levado a uma tendência de “nacionalismo de recursos”, com países a reforçarem o controlo sobre reservas e cadeias de abastecimento.
Ao mesmo tempo, acordos bilaterais e parcerias estratégicas multiplicam-se, reflectindo uma tentativa de garantir acesso seguro a longo prazo. O Japão, a Coreia do Sul e a UE têm sido particularmente activos na diversificação de fornecedores.
Oportunidades e riscos
Apesar do entusiasmo, o mercado de terras raras permanece marcado por desafios estruturais. A complexidade tecnológica, os custos elevados e as preocupações ambientais continuam a limitar a expansão da oferta.
Além disso, a volatilidade de preços e a dependência de decisões políticas introduzem um nível adicional de incerteza. Para países emergentes, como Moçambique, o desafio será transformar o potencial geológico em desenvolvimento económico sustentável, evitando armadilhas de dependência e captura de valor externo.
As terras raras consolidaram-se como um dos pilares invisíveis da economia contemporânea. Mais do que um mercado em crescimento, representam um campo de disputa onde se cruzam interesses económicos, tecnológicos e geopolíticos. Num mundo em permanente transição, o controlo destas cadeias poderá determinar vantagens competitivas e a capacidade de influenciar o rumo da economia global. E, neste tabuleiro, poucos recursos são hoje tão decisivos e disputados quanto as terras raras. (DR)