Por Quinton Nicuete
A força das chuvas voltou a revelar uma contradição antiga no sul de Cabo Delgado: territórios ricos em ouro e pedras preciosas continuam reféns de estradas precárias. Nos últimos dias, vias cruciais entre Namuno, Montepuez e Chiúre tornaram-se praticamente intransitáveis, deixando comunidades isoladas, viaturas atoladas e a economia local à beira da paralisação.

Na ligação entre a aldeia de Nacala e o posto administrativo de Meloco, a estrada cedeu em vários pontos. Ravinas abertas pela enxurrada, lamaçal profundo e troços destruídos transformaram o percurso num obstáculo quase intransponível. Pelo menos duas viaturas ficaram imobilizadas no terreno, incapazes de avançar, num cenário que se repete também no acesso entre Meloco e Chiúre.
A situação é ainda mais crítica no troço Montepuez–Namuno, onde a circulação está interrompida há vários dias. Em Mahurussi–Sapala, na zona de Nicuita, a água invadiu completamente a estrada. Já no segmento Sapala–Linde, uma estrutura cedeu, abrindo uma cratera que impede qualquer travessia.
Segundo o administrador distrital de Namuno, Victorino Lundo, “não há transitabilidade”, sendo que a população passou a recorrer a viagens por etapas para conseguir completar o percurso. “As pessoas descem de um transporte antes das zonas críticas e apanham outra viatura do outro lado”, explicou.
A subida do nível do rio Muatage agravou ainda mais o cenário, deixando isolados quatro postos administrativos, Hucula, Machoca, Ncumpe e Papai, e comprometendo o acesso a serviços básicos.
Sem alternativas seguras, o impacto é imediato: aumento do custo de vida, dificuldades no transporte de doentes e bloqueio no escoamento de produtos agrícolas.
O paradoxo torna-se mais evidente num momento em que o Governo anunciou recentemente o lançamento do concurso público para a asfaltagem de 62 quilómetros da estrada Namuno–Montepuez, no âmbito do programa nacional de reabilitação rodoviária 2026–2031. O plano inclui ainda intervenções nos troços Mecúfi–Mazeze (75 km) e Mazeze–Chiúre (60 km).
Mas no terreno, a realidade impõe urgência que os anúncios ainda não conseguem resolver.
Nos últimos meses, o agravamento da degradação elevou o custo do transporte entre Namuno e Montepuez de cerca de 200 para 500 meticais, penalizando sobretudo comerciantes, camponeses e pacientes que dependem da via para sobreviver.
Entretanto, o dirigente, disse que, dados preliminares indicam que pelo menos 50 casas foram destruídas pelas chuvas em Namuno. O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) mobilizou apoio alimentar de emergência, enquanto decorre o levantamento completo dos danos.
Apesar do potencial económico da região, onde se exploram ouro, rubis e outros recursos de elevado valor, as populações continuam a enfrentar isolamento cíclico sempre que chove. A cada época chuvosa, a mesma pergunta ganha força entre os residentes: como pode uma terra tão rica continuar sem estradas capazes de resistir à chuva?
Enquanto isso, entre promessas de asfaltagem e concursos públicos, a lama continua a ditar o ritmo da vida em Namuno e Montepuez. (Moz24h)