Por Quinton Nicuete
O anúncio da construção da Escola Secundária de Maringanha, em Pemba, chegou a ser apresentado como um marco histórico para a educação em Cabo Delgado. Com 36 salas de aula, capacidade para cerca de 4.500 alunos, bloco administrativo, sistema de água e um pavilhão multiuso, a infra-estrutura prometia redefinir o acesso ao ensino na província.

Mas o projecto que simbolizava progresso acabou por expor fragilidades profundas.
A decisão do então Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender o financiamento da USAID, atingiu directamente Moçambique e travou a obra. Em Maringanha, os trabalhos ficaram paralisados durante sete meses, deixando uma infra-estrutura inacabada e um vazio crescente para milhares de estudantes.
Sem capacidade imediata para retomar o projecto com recursos próprios, o Governo viu-se forçado a procurar alternativas. A solução surgiu através da fundação Mozambique LNG, ligada à TotalEnergies, que assumiu o financiamento de parte das obras.
Com esse apoio, foram concluídas 10 salas de aula, além do bloco administrativo, sistema de abastecimento de água e outras infra-estruturas essenciais. Ainda assim, permanecem por construir cerca de 26 salas e o pavilhão multiuso, peças fundamentais para que a escola funcione na sua plenitude.
Apesar das limitações, o executivo provincial já admite avançar com a abertura parcial da escola, utilizando as 10 salas disponíveis, numa tentativa de reduzir a sobrelotação crónica das escolas da cidade de Pemba e encurtar distâncias para estudantes de bairros periféricos.
No entanto, a retoma das obras trouxe novos desafios. O representante da empresa adjudicada, Cristiano Jorge, afirma não dispor de um valor global actualizado da infra-estrutura, devido às alterações provocadas pela paralisação. Segundo explicou, a obra atravessa uma situação crítica, uma vez que foi retomada após sete meses de interrupção, período durante o qual os custos sofreram variações significativas.
De acordo com o empreiteiro, os preços inicialmente previstos deixaram de reflectir a realidade actual, o que dificulta a apresentação de um orçamento total fiável. “Os valores são diferentes e continuam a mudar”, indicou, sublinhando que ainda não é possível determinar com exactidão quanto está, de facto, a custar a construção.
Ainda assim, há garantias de avanços concretos. Cristiano Jorge assegura que, dentro de três meses, estarão prontas para uso 10 salas de aula, o bloco administrativo, o sistema de abastecimento de água e áreas complementares, incluindo o espaço de estacionamento. Esta fase permitirá a abertura parcial da escola, enquanto se aguardam novos financiamentos para concluir o projecto na sua totalidade.
A decisão, embora pragmática, levanta um debate mais amplo: como uma província com vastos recursos naturais continua dependente de financiamento externo para infra-estruturas básicas?
Cabo Delgado é uma das regiões mais ricas de Moçambique em recursos estratégicos. O gás natural da península de Afungi, explorado com envolvimento de multinacionais como a TotalEnergies, os rubis de Montepuez, o ouro de Namuno e o grafite de Balama, este último essencial para tecnologias modernas e cadeias industriais globais, colocam a província no mapa económico internacional.
Ainda assim, essa riqueza não se traduz, de forma proporcional, em investimento público estruturante.
O grafite extraído em Balama, por exemplo, é matéria-prima crítica para baterias de veículos eléctricos, um sector associado a empresas como a Elon Musk. No entanto, nas comunidades locais, persistem carências básicas como escolas concluídas, estradas transitáveis e serviços essenciais.
Perante este cenário, o Governo provincial garante que continua a mobilizar apoios para concluir a obra de Maringanha. O próprio executivo admite que não vai “cruzar os braços”, sinalizando que novas parcerias estão a ser procuradas.
Entretanto, o governador de Cabo Delgado, Valige Tauabo, revelou que a escola já possui um nome atribuído, em homenagem a uma figura pública, devendo o anúncio oficial ser feito nos próximos dias.
Enquanto isso, a imagem que fica é a de uma infra-estrutura que nasceu para ser referência, mas que acabou por se tornar símbolo de uma realidade mais dura: a dependência de financiamento externo para transformar riqueza natural em desenvolvimento concreto.
E em Pemba, milhares de alunos continuam à espera que as promessas saiam do papel, mesmo que, para já, caibam apenas em 10 salas de aula.