Por: Castro Cleiton
Há coisas que o jornalista aprende a reconhecer com o tempo. Uma delas é a diferença entre coincidência e padrão. Outra é perceber quando uma notícia nasce numa redacção e quando simplesmente chega pronta, à espera de uma voz, algumas imagens e um OFF para ganhar aparência de reportagem.
Em Moçambique, começa a ser difícil ignorar um fenómeno que se repete: grandes órgãos de comunicação, muitas vezes concorrentes, apresentam a mesma história praticamente pelo mesmo ângulo, com a mesma hierarquia de informação, frases semelhantes e, em alguns casos, estruturas que pouco diferem umas das outras. Não estamos a falar de terem a mesma informação. Estamos a falar de contarem a mesma história quase da mesma maneira. E isso deveria incomodar qualquer jornalista que ainda leve a sério a palavra independência.
Quem já escreveu uma notícia sabe que um texto não é apenas um conjunto de palavras. Há uma assinatura invisível na escolha do lead, na sequência dos factos, no verbo utilizado, naquilo que se coloca no primeiro parágrafo e naquilo que deliberadamente se deixa para o fim. Um jornalista pode reconhecer o próprio texto mesmo depois de alguém trocar algumas palavras, cortar uma frase ou reorganizar dois parágrafos. Por isso, quando diferentes emissoras apresentam peças quase gémeas, a pergunta é inevitável: quem está a pautar quem?
Não estou a afirmar que existam envelopes, pagamentos clandestinos ou acordos secretos entre chefias editoriais e interesses particulares. Para isso seriam necessárias provas. Mas também não aceito que a ausência de prova de um esquema seja utilizada para impedir perguntas legítimas sobre padrões editoriais que se repetem. O jornalismo não pode exigir transparência de todos e, quando chega a sua vez, esconder-se atrás da porta da redacção.
Mais grave ainda é quando o jornalista que está no terreno passa a ser utilizado apenas como operador de uma decisão tomada a centenas de quilómetros de distância. Mandam-se correspondentes gravar o off, recolher uma declaração, fazer algumas imagens e enviar tudo para a redacção central. Depois, monta-se a peça longe do jornalista que acompanhou o acontecimento e, no ar, fica a impressão de que aquele profissional produziu integralmente a reportagem. Não há nada de errado em uma redacção central editar material dos correspondentes. O problema começa quando o jornalista deixa de ser repórter e passa a ser apenas a voz de uma narrativa que não ajudou a construir.
E aqui há uma questão que merece ser feita sem rodeios: que tipo de jornalismo estamos a construir quando o correspondente é informado apenas o suficiente para obedecer, mas não o suficiente para compreender o enquadramento da matéria que está a produzir? Se a decisão editorial já foi tomada antes de o jornalista chegar ao terreno, para que serve então a reportagem? Para recolher evidências ou simplesmente para confirmar uma narrativa previamente escolhida?
O problema não é apenas profissional. É público. Quando diferentes meios de comunicação repetem a mesma narrativa, o cidadão perde uma das principais razões pelas quais existem órgãos de imprensa diferentes: a possibilidade de ouvir perguntas diferentes sobre o mesmo facto. Jornalismo não é uma procissão em que todos caminham atrás do mesmo andor. É confronto de fontes, investigação, contraditório, contexto e, sobretudo, independência.
E não há imunidade para ninguém. Nem para os órgãos públicos, nem para os privados, nem para aqueles que construíram a sua reputação precisamente à volta da defesa da liberdade de imprensa. Quanto maior for a reputação de uma redacção, maior deve ser a exigência sobre os seus métodos. Não se pode vender ao público a imagem de farol da liberdade e, simultaneamente, trabalhar editorialmente como se todas as luzes tivessem de apontar para o mesmo lugar.
A pergunta que fica é desconfortável, mas necessária: quem está a decidir o que os moçambicanos devem ver, ouvir e considerar importante? São os jornalistas? São os editores? São as fontes? São assessorias? São interesses económicos? São actores políticos? Ou são simplesmente rotinas editoriais que ninguém mais se dá ao trabalho de questionar?
O público talvez não conheça os corredores das redacções, mas não é ingénuo. Pode não saber quem escreveu determinado lead, quem telefonou para quem ou quem decidiu retirar determinada informação. Mas percebe quando uma matéria cheira a propaganda, quando o contraditório desaparece e quando cinco órgãos diferentes parecem ter recebido o mesmo guião.
Acham mesmo que ninguém percebe?
O jornalista pode enganar o leitor uma vez. Pode até fazê-lo duas. Mas quando o padrão se torna recorrente, já não é apenas a notícia que está em causa. É a credibilidade de quem a publica.
E talvez seja este o momento de lembrar uma coisa elementar: uma redacção não existe para agradar a quem tem poder, dinheiro ou influência. Existe para informar o público.
Quando o jornalismo começa a perguntar primeiro “quem vai gostar desta matéria?” em vez de “isto é verdade, relevante e devidamente contextualizado?”, já não estamos apenas perante uma escolha editorial.
Estamos perante uma crise de função.
E essa crise, mais cedo ou mais tarde, será cobrada por quem realmente sustenta o jornalismo: o público.

