Por: Castro Cleiton
Neste Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, escrevo não apenas como jornalista, mas como alguém que sente profundamente cada ataque dirigido à Comunicação Social, em qualquer parte do mundo. Quando um jornalista é silenciado, intimidado ou agredido, seja por políticos, militares, autoridades ou qualquer figura de poder, sinto esse golpe como se fosse contra mim, contra o órgão para o qual trabalho e contra a própria essência da profissão que escolhi por amor.
Não entrei no jornalismo à procura de emprego. Entrei por vocação, pelo prazer e compromisso de servir a sociedade e a Humanidade através da informação. O emprego foi consequência dessa paixão. É por isso que continuarei sempre a defender mentes livres, a liberdade de opinião, a liberdade de expressão e, sobretudo, a liberdade de imprensa, princípio fundamental que dá sentido ao exercício da minha missão como jornalista.
Gostaria que uma data como esta fosse apenas de celebração, mas a realidade obriga-me a falar. Em Moçambique, embora a Constituição consagre liberdades fundamentais, persistem lacunas profundas entre o que está escrito e o que é vivido. Falta respeito real pela profissão jornalística. Muitas vezes, o mesmo povo por quem o jornalista luta, denunciando injustiças e dando voz aos seus direitos, torna-se também agente de ataques e desvalorização. O jornalista moçambicano abre espaço para políticos, sociedade civil e todos os sectores sociais se expressarem, mas continua frequentemente tratado com mediocridade e desprezo.
Os ataques contra jornalistas no país tornaram-se recorrentes, mas quase sempre terminam apenas em comunicados, apelos e discursos formais. Raramente há responsabilização exemplar. E, pior ainda, aqueles que deveriam garantir justiça e protecção muitas vezes demonstram pouco interesse em fazê-lo.
O mais recente relatório da Reporters Without Borders reforça uma realidade preocupante: apenas uma pequena parcela da população mundial vive em ambientes onde a liberdade de imprensa é plenamente garantida, e Moçambique continua entre os países onde exercer jornalismo permanece um desafio constante. É uma posição preocupante que, infelizmente, parece repetir-se ao longo das décadas.
Na província de Cabo Delgado, onde exerço a minha actividade ao lado de colegas de órgãos locais, nacionais e correspondentes internacionais, esta realidade torna-se ainda mais dura. Desde o eclodir do terrorismo, há quase uma década, trabalhamos em cenários de extremo risco, muitas vezes sem qualquer protecção mínima, sem coletes, sem capacetes, sem garantias, apenas com coragem, compromisso e os nossos instrumentos de trabalho. Deslocamo-nos para distritos e comunidades perigosas, frequentemente acompanhando dirigentes, operações e movimentos em zonas instáveis, porque acreditamos que informar também é servir.
Fazemos esta profissão por amor. Por convicção. Por responsabilidade social. Mas fazemos também conscientes de que enfrentamos perigos reais todos os dias. Sabemos que os riscos são constantes e que, a qualquer momento, o pior pode acontecer.
Ainda assim, seguimos.
Porque o jornalismo não é apenas uma profissão. É missão. É coragem. É resistência.
E enquanto houver injustiça, silêncio imposto ou medo, continuaremos a erguer a voz, mesmo quando o preço for alto. Porque uma sociedade sem imprensa livre jamais será verdadeiramente livre.

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