Economia Sociedade

NAMANHUMBIR: Violência, Exclusão e Colonialidade na Nova Fronteira do Rubi

Foto: Estacio Valoi/Namanhubir/ 18 metros / Foto ilustrativa

 

Jerry Maquenzi

 

 

A morte de três garimpeiros na concessão da Montepuez Ruby Mining (MRM), em Namanhumbir, reportada pelo jornalista Estácio Valoi em 15 de Outubro de 2025, trouxe novamente à luz a face mais obscura da mineração em Moçambique. As imagens de corpos baleados e o silêncio das autoridades reabriram uma ferida antiga: a da violência estrutural que sustenta o extractivismo mineral no país. Este artigo vem complementar as evidências recolhidas no terreno sobre os baleamentos e mortes de garimpeiros ilegais, confrontando a narrativa oficial com testemunhos directos recolhidos por mim no primeiro trimestre de 2024 junto de garimpeiros e líder comunitário da aldeia de Nséue, a poucos quilómetros da mina.

Foto : Estacio Valoi /Namanhumbir_GEMFIELD_BASE__1

 

Desde o início das operações da MRM em 2012, a área mineira nunca deixou de ser invadida por garimpeiros ilegais. A cada invasão seguem-se confrontos, detenções e mortes. Mesmo depois de a empresa-mãe, Gemfields, ter sido acusada de violações de direitos humanos no Reino Unido (em Londres) pela Leigh Day e obrigada a pagar 5,8 milhões de libras em compensações, as mortes continuam a ocorrer. O chamado “mecanismo independente de queixas” criado após o acordo judicial não impediu que novos corpos fossem enterrados. Em Namanhumbir, o rubi é mais do que uma pedra preciosa: é o símbolo de uma economia fundada na dor, na repressão e na impunidade.

  1. A Persistência da Violência Extractiva em Namanhumbir

Os relatos colhidos entre os garimperioss ilegais descrevem um ambiente de terror e medo. A violência tornou-se parte da rotina extractiva. Um líder comunitário da aldeia de Nséue afirma:

“Os jovens por isso são batidos lá no mato, e são mortos.”

Esta frase, breve e crua, sintetiza a normalização da morte como método de controlo social. Os garimpeiros ilegais são tratados como inimigos de guerra, e não como cidadãos. O Estado, em vez de proteger, legitima a força letal. Policiais e militares actuam lado a lado com as forças privadas de segurança da MRM, muitas vezes confundindo a autoridade pública com a defesa corporativa.

Outro testemunho descreve o terror subterrâneo vivido pelos garimpeiros:

“Eles costumam nos ameaçar, costumam disparar balas de piripiri dentro da cova. Quando você não sai de imediato da cova, eles disparam para si.”

Esta cena, digna de um campo de batalha, mostra que a violência não é exceção – é o método de governança da mina. Em casos extremos, garimpeiros foram mortos dentro das covas e sepultados sob o entulho:

“Até meu amigo morreu dentro da cova… era uma cova de 10 metros. Taparam com a pessoa lá dentro.”

A mina transforma-se assim num cemitério invisível, onde a terra que gera riqueza também engole vidas. A brutalidade é funcional: serve para desincentivar a presença dos pobres nos espaços do capital. É uma pedagogia da morte que ensina pela força quem pode e quem não pode existir naquele território.

Mesmo após a condenação da Gemfields, nenhuma mudança substancial ocorreu. A violência continua a ser administrada sob o argumento da “protecção da concessão”. As autoridades locais raramente abrem inquéritos ou responsabilizam os agressores. A impunidade tornou-se a regra não escrita do extractivismo, onde a vida humana vale menos do que uma pedra preciosa.

Foto: Estacio Valoi/Namanhumbir
Foto: Estacio Valoi/Namanhumbir
  1. A Juventude e a Economia da Sobrevivência

A reincidência dos jovens no garimpo não decorre de ignorância ou criminalidade, mas da ausência de alternativas económicas reais. As famílias vizinhas à mina vivem em condições precárias, sem energia, emprego ou estradas transitáveis. O mesmo líder comunitário de Nséue lamenta:

“Desde 2015 nem sequer um trabalhador [foi empregue na MRM], zero até hoje… fomos mandados embora das nossas machambas… pedimos apoio no sentido de construir uma nova ponte [sobre a barragem de Nséue], nada aconteceu [até hoje].”

  3. A Cumplicidade do Estado e a Captura dos Recursos

A violência em Namanhumbir não ocorre à margem do Estado, mas sob o seu olhar cúmplice. Os garimpeiros percebem claramente essa aliança perversa entre poder político e capital estrangeiro. Um deles afirma:

“O branco ele está a trabalhar… o governo é que está a mandar aquela empresa.”

Outro completa:

“Nosso governo de Moçambique está interessado no dinheiro, [o investidor] influencia o governo e o governo aceita as suas imposições.”

Estas falas mostram uma consciência política profunda: a de que a violência não é apenas física, mas institucional e política. A captura do Estado pelo capital mineral transforma as forças públicas em guardiãs do lucro privado. O governo, em vez de regular, subordina-se ao poder económico, reduzindo as comunidades a espectadores da sua própria riqueza.

Este é o retracto clássico do Estado extractivista: forte na repressão, fraco na redistribuição. O poder público age para garantir estabilidade aos investidores, mas não para assegurar justiça às populações. A cumplicidade estatal é reforçada por políticas de silêncio – a ausência de transparência nas concessões, a falta de inquéritos às mortes, e o desaparecimento dos fundos destinados às comunidades.

Os garimpeiros compreendem esse pacto invisível. Eles não distinguem o fardado do vigilante privado, porque ambos os tratam com a mesma violência. A impunidade é o cimento dessa aliança.

  4. A Desigualdade Territorial e a Promessa não Cumprida da Redistribuição

Em teoria, 2,75% das receitas da mineração de rubis devem ser canalizados para o desenvolvimento das comunidades afectadas. Na prática, esse fundo nunca chegou em algumas às aldeias. O líder de Nséue explica:

“Desde 2015 nunca tivemos benefício desses 2,75%, estamos aqui a 3 km da mina… até hoje o plano [de electrificação] nunca se colocou em prática.”

A distância entre a mina e a aldeia é curta, mas simboliza o abismo social que separa quem extrai a riqueza de quem sofre as suas consequências. Enquanto os rubis seguem para leilões internacionais, Nséue continua sem energia, sem estrada e sem centro de saúde.
A redistribuição prometida converteu-se num ritual burocrático de exclusão, onde conselhos consultivos decidem sem ouvir os afectados, e os fundos públicos desaparecem sem rasto. O desenvolvimento, assim, assume um carácter colonial: a riqueza flui para fora, a pobreza permanece dentro.

Esta desigualdade espacial não é mero acaso – é parte integrante da lógica extractiva. O território é dividido entre zonas de privilégio e zonas de sacrifício. As aldeias próximas à mina tornam-se zonas de expropriação permanente, onde a população é tolerada apenas enquanto silenciosa e útil.

  5. Colonialidade, Racismo e Resistência Simbólica

Os depoimentos dos garimpeiros revelam uma leitura pós-colonial da sua própria condição. Eles reconhecem na figura do “branco” não apenas o investidor, mas o herdeiro do colonizador. Um deles denuncia:

“[O branco] veio a nossa casa e nos apanhou, veio tirar os nossos recursos, depois vira contra [nós] e começam a nos matar.”

E outro conclui:

“Este branco veio para cá não para buscar a riqueza, mas sim maltratar os africanos.”

Essas falas ecoam a memória histórica da exploração colonial. A diferença é que, hoje, o saque é legalizado por contratos e concessões. A colonialidade do poder manifesta-se na continuidade das hierarquias raciais e económicas que colocam o africano como subalterno dentro da sua própria terra. A mineração, apresentada como modernidade e progresso, reproduz relações coloniais sob novas formas jurídicas.

Mas, dentro dessa violência, emerge também uma forma de resistência simbólica. Os garimpeiros afirmam que foram eles quem “descobriram as pedras”, que a terra é sua, e que o estrangeiro apenas “veio tirar”. Este discurso reverte a narrativa de criminalização, reivindicando autoridade moral e histórica sobre o território.
O garimpo, embora precário e perigoso, transforma-se num acto de reapropriação simbólica, uma tentativa de retomar o direito de existir num espaço que lhes foi negado.

Conclusão

A tragédia de Namanhumbir é um espelho das contradições do modelo de desenvolvimento moçambicano. O país, rico em recursos naturais, continua preso a uma lógica que privilegia o lucro estrangeiro e penaliza os seus cidadãos mais vulneráveis. O rubi que brilha nas vitrines de Londres ou Singapora é o mesmo que ilumina a escuridão da injustiça social e da violência impune em Cabo Delgado.

Os depoimentos recolhidos revelam que a violência extractiva é estrutural, não acidental. Ela nasce da conivência entre Estado e empresa, da marginalização da juventude e da persistência de uma colonialidade económica que transforma cidadãos em inimigos. As mortes de garimpeiros ilegais não são “incidentes de segurança”, mas sintomas de uma economia política da morte – uma economia que depende da repressão para existir.

Romper esse ciclo exige transparência, responsabilização e redistribuição efectiva. Significa reconhecer que as comunidades afectadas devem ter voz e participação na gestão dos recursos, e que o Estado deve servir os cidadãos antes das corporações.
Enquanto isso não acontecer, cada rubi extraído em Namanhumbir continuará a carregar o peso de uma vida interrompida, e Moçambique continuará a repetir o mesmo dilema: a riqueza do subsolo como maldição da superfície.(Moz24h)

Referência

Valoi, E. (15.10.2025). Três mortos na concessão da mineradora Gemfields/MRM. Disponível em: https://moz24h.co.mz/tres-mortos-na-concessao-da-mineradora-gemfields-mrm/.

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