Moçambique e África do Sul assinalam esta segunda-feira, 19 de Outubro, os 40 anos da morte do primeiro Presidente moçambicano, Samora Moisés Machel, numa cerimónia conjunta prevista para Mbuzini, na província sul-africana de Mpumalanga, junto ao local onde o avião que o transportava se despenhou, a 19 de Outubro de 1986.
Segundo a Associated Press (AP), a cerimónia pretende homenagear o antigo dirigente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e figura histórica da luta contra o colonialismo português e o regime do apartheid na África Austral.
Samora Machel morreu quando regressava de uma reunião de líderes regionais realizada na Zâmbia. O acidente provocou também a morte de outras 34 pessoas, entre membros do Governo moçambicano, jornalistas e tripulantes.
Quatro décadas depois, as circunstâncias da queda continuam a suscitar interrogações. Uma investigação liderada pela África do Sul atribuiu o acidente aos pilotos e afastou a hipótese de sabotagem. Moçambique, contudo, contestou as conclusões, defendendo que o desastre poderia ter sido provocado deliberadamente pelo então regime sul-africano, que se opunha ao apoio de Machel aos movimentos de libertação da região.
Especialistas moçambicanos e soviéticos, uma vez que a aeronave tinha sido fabricada na União Soviética, também rejeitaram as conclusões do inquérito. Entre as suspeitas levantadas estava a alegada utilização de um sinal de navegação falso para desviar o avião da rota correcta, hipótese que foi rejeitada pela investigação sul-africana.
O acidente foi posteriormente analisado pela Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, criada após o fim do apartheid. Embora não tenha chegado a conclusões definitivas sobre as causas da queda, a comissão recomendou novas investigações e levantou dúvidas sobre alguns aspectos do inquérito de 1987, incluindo relatos da alegada presença de militares sul-africanos nas proximidades do local um dia antes do acidente.
Da luta pela independência à liderança de Moçambique
Samora Machel assumiu a liderança da FRELIMO após a morte de Eduardo Mondlane, em 1969, e tornou-se o primeiro Presidente de Moçambique independente, em 1975, depois de uma década de luta armada contra o domínio colonial português.
A independência foi alcançada após a queda da ditadura em Portugal, em 1974, e a assinatura dos Acordos de Lusaka entre o Governo português e a FRELIMO, que estabeleceram as bases para a transferência do poder.
Durante a sua presidência, Machel instituiu um Estado de partido único, de orientação marxista-leninista, e aproximou Moçambique da União Soviética e de Cuba. Dois anos depois da independência, o país mergulhou numa guerra civil entre o Governo da FRELIMO e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), movimento rebelde que recebeu apoio da África do Sul e da então Rodésia, actual Zimbabué.
O conflito prolongou-se durante vários anos e deixou profundas consequências políticas, económicas e sociais no país.
“A luta continua” e o combate ao apartheid
Samora Machel ficou também conhecido pela expressão “A luta continua”, que se tornou um dos principais símbolos da luta de libertação na África Austral. Para o antigo Presidente, a independência de Moçambique não estaria plenamente consolidada enquanto persistissem regimes de minoria branca na região.
O seu Governo apoiou movimentos de libertação que combatiam o apartheid na África do Sul e o regime de minoria branca na Rodésia. Esse posicionamento colocou Moçambique em confronto com os governos que procuravam impedir o avanço desses movimentos, expondo o país a incursões e ataques militares.
A morte de Samora Machel, em 1986, representou um dos episódios mais marcantes da história política moçambicana e da região, permanecendo, quatro décadas depois, como um acontecimento cuja explicação continua a ser objecto de debate histórico.
A cerimónia de Mbuzini reúne simbolicamente os dois países em torno da memória do antigo Presidente, numa altura em que persistem questões sobre as circunstâncias exactas do acidente que vitimou Machel e outras 34 pessoas.
Fonte: Associated Press (AP)

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