Por: João Cabrita
Há uma nova versão sobre as causas do desastre aéreo ocorrido em Mbuzini, África do Sul, a 19 de Outubro de 1986. De acordo com um livro recentemente lançado em Maputo (Moçambique recolonizado através da corrupção),o desastre resultou de um “falso farol de navegação VOR (Radiofarol Omnidireccional em Frequência Muito Alta) com o código do sinal do aeroporto de Maputo, mas que dirigiu o avião para a aterragem”. A descoberta é de Joseph Hanlon, autor do livro e considerado em círculos académicos, políticos e intelectuais como “especialista em assuntos moçambicanos”.
Até à publicação do livro sabia-se que os sistemas VOR não transmitiam sinais codificados, nem tão pouco “dirigiam aviões para aterragens”.
Antes da descoberta de Hanlon, as estações VOR transmitiam ondas magnéticas por meio de frequências de acesso livre. As frequências de estações VOR vêem indicadas em cartas de navegação aérea para utilização no espaço aéreo por pilotos de aviação como meio de orientação. Têm a função de fornecer aos pilotos um rumo a seguir no plano horizontal e de indicar o azimute. As estações VOR não são um guia para se efectuar uma descida e nem fazem com que uma aeronave desça.
Por conseguinte, as estações VOR não “dirigem aviões para aterragens”. Se assim fosse, os aviões que cruzam o espaço aéreo de um país em conformidade com um determinado plano de voo seriam atraídos para o local de uma estação VOR sempre que os pilotos sintonizassem a respectiva frequência como meio de orientação.
Os investigadores do desastre de Mbuzini, representando a África do Sul, Moçambique e a União Soviética, concluíram que os pilotos do Tupolev presidencial não cumpriram os procedimentos de descida e aterragem em Maputo e desrespeitaram as instruções fornecidas pela torre de controlo do aeroporto de Maputo após a entrada no espaço aéreo moçambicano.
De acordo com essas instruções, os pilotos ao atingirem os 3,000 pés deviam ter mantido o avião a esta altitude. Trata-se da Altitude Mínima de Segurança estabelecida para Maputo, como aliás vem especificado nas cartas de navegação aérea referentes ao aeródromo da capital moçambicana. Só poderiam descer abaixo dos 3,000 pés quando tivessem as luzes da pista a vista, conforme as instruções fornecidas pela Torre de Controlo.
Após terem sintonizado a frequência de uma estação VOR, que julgavam ser a de Maputo, os pilotos continuaram a descer. Sem terem avistado as luzes da pista desceram abaixo dos 3,000 pés até se despenharem no cume dos montes Libombos. Na versão de Hanlon, o avião colidiu na encosta desses montes.
Por se tratar de uma aterragem por aproximação directa à pista 23 de Maputo, os pilotos, uma vez avistadas as luzes da pista, teriam de sintonizar um outro sistema de ajuda à navegação, o ILS (Sistema de Aterragem por Instrumentos). O ILS consiste de duas antenas. Uma, o localizador, situada na linha de cabeceira da pista. A outra, a ladeira do ILS, situa-se à direita da pista 23. O sistema ILS de Maputo inclui ainda dois marcadores instalados antes da pista. Os marcadores fornecem aos pilotos a altitude em que se encontram no momento de aproximação à pista. A intercepção dos sinais transmitidos pelas duas antenas, indicariam aos pilotos a linha central da pista 23. A gravação do CVR (Gravador de Cabine) do avião revelou que os pilotos do Tupolev presidencial não conseguiram obter o sinal transmitido pelo ILS de Maputo pois estavam fora do alcance desse sistema. Apesar disso, continuaram a descer, tendo inclusivamente ignorado o sinal de alarme fornecido pelo GPWS (Sistema de Aviso de Proximidade do Solo), o que constitui uma violação do manual do Tupolev 134-A.
Embora a conjugação de todos estes seja a causa clara e evidente do desastre, o autor de «Moçambique recolonizado através da corrupção» é taxativo quanto à morte de Samora Machel: “Definitivamente, uma morte anunciada”. Acredita-se que associada à referida descoberta, esta conclusão de Hanlon poderá agilizar as aturadas investigações que a PGR realiza desde Maio de 2008 sobre as causas do trágico acontecimento de Mbuzini. (João Cabrita facebook)

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